A melhor época é quando as chuvas estão acabando, pois desta forma as estradas estarão mais seguras e a vegetação ainda estará bem verde. Além de que as corredeiras e cachoeiras ainda estarão cheias e mais limpas e cristalinas. Ou seja, entre os meses de junho a setembro.
O QUE LEVAR:
Leve a autorização concedida pelo ICMBio e avise o chefe do PARNA pelo menos 15 dias antes de sua ida. Além disso, leve uma capa contra chuva sempre de reserva, uma boa bota de cano longo, meião ou meias especiais, esparadrapo e algodão, repelente, protetor solar, boné, óculos de sol, roupas de uso pessoal (prefira as de nylon ou de material leve), um bom GPS com as coordenadas já marcadas, power bank (carregador para aparelhos eletrônicos), lanterna de testa, aparelhos eletrônicos pessoais, barras de cereal, bananas desidratadas, uma ou outra bebida energética, produtos de higiene pessoal, etc.
Leve um tênis daqueles a prova d’água para ficar na voadeira e ao descer nas ilhas de areia.
Leve um Específico Pessoa para amenizar eventuais picadas de animais peçonhentos para as primeiras horas.
COMO CHEGAR:
De avião comercial para Ilhéus-BA e de lá aluga-se um carro para dirigir 306 km até Guaratinga-BA e mais 38 km até o distrito de Monte Alegre-BA.
Se preferir pode ir de carro próprio, mas seria importante ir num 4×4 para subir as serras.
CIDADES DE APOIO:
Guaratinga-BA é a melhor opção e a mais próxima dos municípios. Há também cidades do lado mineiro, porém, os acessos são mais precários. Monte Alegre-BA é um distrito de Guaratinga-BA e se encontra mais perto ainda do PARNA. Ali há algumas pousadas que ajudam na logística, além de lanchonetes e alguns restaurantes.
ATRAÇÕES:
No verão há uma festa popular chamada samba de couro, onde as pessoas mais velhas convidam as outras para dançar numa espécie de bumba-meu-boi sem o boi. Os instrumentos são feitos de couro e confeccionados pelos próprios músicos e participantes. Há várias cachoeiras como a Lasca Bode, do Lírio, da Diagonal, do Bel, da Pedra Verde, entre outras e muitas corredeiras. As serras são uma beleza à parte com paisagens deslumbrantes de seus morros e montanhas. O encontro de três biomas (Mata Atlântica, Floresta Amazônica e Caatinga) proporcionam o aparecimento de várias espécies de fauna e de flora, sendo a principal delas o macaco-muriqui, o maior das três Américas.
DICAS:
Procure ir ou usar um carro 4×4 porque as estradas de terra e as serras exigem muito.
Tenha autorização do ICMBio para entrar no PARNA.
Nunca ande sozinho na mata.
RISCOS:
Raios, ventanias, chuvas fortes, inundações, desmoronamentos, etc.
Animais peçonhentos, onças, arraias, jacarés-açus, entre outros animais selvagens.
Acidentes de forma geral, escorregões, quedas, se perder, afogamentos, cortes, picadas, mordidas, insolações, intoxicações alimentares, etc.
DIÁRIOS:
Hoje acordamos às 7 horas e saímos às 8 horas para a cidade de Guaratinga-BA. Depois passamos pelos seus distritos de São João do Sul, Pousa Alegre e Monte Alegre, onde nos alojamos. A região é bem bonita, ou seja, com fazendas de gado e os morros do PARNA Alto Cariri nos fundos. Almoçamos, descansamos um pouco e saímos para dar uma volta com o nosso guia. Passamos pelas corredeiras do Valdeci e pelo balneário do Sérgio próximo de Monte Alegre-BA e depois voltamos para ir no sentido de São João do Jacinto-MG. A vista por ali é exuberante, ou seja, com muitos morros, pastagens, lírios e córregos de águas cristalina cercados de remanescentes da Mata Atlântica, principalmente nos cumes dos morros. Além disso, vimos algumas plantações de café e urucum. Por um momento a gente nem acredita que está na Bahia. Aliás, a Bahia é muito mais do que só praias e Chapada Diamantina. É como dizer que o Brasil é só o RJ. Essa ideia é totalmente equivocada. A maioria dos leigos, por causa da mídia, tem só uma ou duas visões sobre a Bahia. É por isso que eu digo que a gente só conhece bem um lugar quando vai pessoalmente, pois a Internet e a TV ocultam muitas coisas. Passamos pela linda cachoeira do Lasca Bode e depois por dentro do seu rio de carro. Tracei o 4×4 e o fui atravessando com muita atenção, pois dentro do rio existem duas pedras em cada extremidade que se calcular mal é pancada na certa. Lembrei-me da travessia que fiz certa vez no rio Prata no Jalapão-TO. Continuamos a subir a serra com o 4×4 reduzido e visual ficou bem bonito com o gado lá em baixo nas pastagens. Passamos por várias porteiras e chegamos até a fronteira com MG. Percorremos uma boa parte dentro do PARNA e depois voltamos para Monte Alegre-BA. Vi alguns morrinhos arados e fiquei pensando na possibilidade de acontecer erosões, já que não havia nenhuma curva de nível. Um morro de pedra dava a impressão de ter uma cicatriz e por isso o chamamos assim. Ali por perto percebi que havia uma pedra furada também. O nosso guia é professor de biologia da cidade e disse não concordar com o nome desse PARNA, pois segundo ele, Cariri é um tipo de vegetação que quase não existe ali e consiste numa espécie de Caatinga ou agreste baixo. Ele nos disse também que o PARNA faz fronteira com o Parque Estadual de mesmo nome em MG, e que acha que tal PARNA foi criado porque avistaram um grupo grande de macacos-muriquis em seu interior. Esse tipo de macaco é o maior das três Américas e se encontra em extinção.
Acordamos às 7 horas e às 8 horas já estávamos subindo a serra em direção à Sta. Maria do Salto-MG, passando por dentro do PARNA Alto Cariri. O caminho não era uma estrada, mas sim uma trilha. Para piorar o dia amanheceu nublado e com uma chuvinha fina. Tracei o 4×4 reduzido e fomos bem devagar. Do lado oposto dos barrancos havia cada abismo enorme e com o barro a tensão aumentou. Sorte que neste trecho havia muita pedra que ajudava a firmar melhor a terra. Por falar em pedra, uma quase do tamanho da camioneta havia despencado do barranco e bloqueado a trilha. Ainda dava para ver os pedações enormes dela quebrados por alguém para desobstruir a passagem. Mesmo assim ficou um trecho apertado de se passar. O tempo todo era só subida, mas o visual compensou. Um pouco mais para a frente vimos a linda cachoeira dos Lírios, com uma queda alta em forma de corredeira. Havia um laguinho na sua base cercado de lírios e ao lado dela havia uma outra cachoeira tão alta quanto a mesma e na Diagonal. Seguimos em frente e chegamos a um ponto bem crítico de se passar, pois a lama estava fazendo com que os pneus escorregassem demais. Com isso, foi preciso encaixar os pneus da camioneta exatamente no carreiro de pedra. O problema é que havia uma pontezinha estreita demais e só era possível subi-la se pegássemos um bom embalo. Tentei uma vez e não deu certo. Tive que voltar bem devagar para não cair da pontezinha. Tentei pela segunda vez e também não deu certo. Na terceira vez consegui chegar bem perto do carreiro de pedra e forcei o 4×4 na primeira marcha, até que a dianteira do carro encaixou naquele carreiro e logo depois com uma boa arrancada a traseira encaixou também. Por fim conseguimos passar e seguimos em frente.
Passamos por uma linda mata fechada e preservada, com um riachinho de água cristalina. Samambaias de várias espécies, bromélias e outras plantas apareciam por todos os lados. Depois de quase duas horas de subida conseguimos chegar à fronteira do PARNA com MG. Havia um colchete dividindo os dois estados (BA/MG), sendo que do lado mineiro encontra-se o Parque Estadual do Alto Cariri. Paramos no local e admiramos a linda paisagem bem do alto da serra. Algumas arapongas estavam cantando na floresta. Pequenas quaresmeiras estavam do nosso lado e logo na frente lindas árvores com flores amarelas e rosadas. Marquei um ponto no GPS e fomos mais para frente na direção de MG e depois voltamos. Começamos a descer a serra e a chuva engrossou um pouco. Com isso, tive que descê-la bem devagar e com muita cautela e atenção porque qualquer vacilo ali poderíamos cair em algum abismo. Depois de ouvirmos muitos trovões ouvimos um outro barulho de lascar. De repente apareceu um rebanho de vacas sendo tocado por um peão ladeira abaixo. Parei para que os bichos passassem, pois o caminho era muito estreito. Os bichos passaram na maior velocidade e raspando a minha camioneta. Depois eles deixaram a trilha ainda mais escorregadia por causa de suas fezes e pisadas. Já quase no fim da descida paramos numa casinha pra conhecermos a cachoeira do Gargantel. Caminhamos uns 500 m e chegamos em duas quedas com um bloco de pedra enorme entre elas. A chuva tinha dado uma pequena trégua e entrei na água. Passei por detrás das cachoeiras, onde existia um tipo de grutinha e tirei várias fotos. Depois subimos um pouco mais o rio das Pedras por partes bem escorregadias e chegamos a um lajedão ideal para se fazer esquibunda ou utiliza-lo como um toboágua. Voltamos para a camioneta e fomos almoçar.
A chuva aumentou e deixou as estradas bem perigosas. Saímos depois do almoço, andamos uns 7 km no meio de um verdadeiro “sabão” nas estradas, onde a camioneta jogava de lado, beirando os abismos e fiquei meio assustado, pois eu não tinha quase nenhum controle. Num certo momento ela beirou um abismo, parei e tentei sair, mas aí ela se aproximava mais ainda do abismo. Pensei que teríamos que dormir ali na esperança do tempo melhorar. Já no 4×4 engatei a ré e consegui sair bem devagar. Mais adiante patinei novamente a camioneta, joguei-a para o lado e acabei batendo a sua traseira no barranco. É preferível bater num barranco do que cair num abismo. Pensei que desse jeito estava muito difícil de continuar arriscando cair a qualquer momento num desses abismos e com isso resolvi voltar. Na volta ainda passamos por mais sustos, porém, conseguimos chegar bem à Monte Alegre-BA. A camioneta e seus pneus ficaram com uma camada bem grossa de barro. Ao descer do carro apareceu um senhor me perguntando se eu era o chefe do PARNA e já foi logo dizendo que era para eu aceitar as suas desculpas porque ele havia derrubado algumas árvores em sua propriedade e etc. Falei que não era e que estava ali só tirando fotos e conhecendo a região. Acho que terei que pintar a minha camioneta de outra cor para não confundir com a do ICMBio. Depois que chegamos à cidade, a dona da pousada nos disse que sua filha havia recém-chegado de Eunápolis-BA por essa mesma estrada que havíamos andado. A coitada estava chocada com os sustos que havia passado. Num momento, o carro dela resvalou e bateu forte num barranco. Tomara que essa chuva vá embora porque senão acho que não poderemos continuar com o passeio. A cidade estava na maior zona à noite, ou seja, com uns motoqueiros barulhentos incomodando todo mundo.
Acordamos às 6 horas e só saímos às 8 horas. Ainda bem que ontem a bagunça dos motociclistas foi longe da praça próxima da nossa pousada. A dona da pousada disse que a festa foi no ginásio do povoado e teve um tal de samba de couro, onde os mais antigos da cidade puxam uma espécie de bumba-meu-boi sem o boi para todos dançarem e os seus instrumentos são todos feitos de couro confeccionados pelos próprios participantes. Fiquei até curioso de conhecer manifestação cultural, mas estava muito cansado. O dia amanheceu com o sol fraco entre as nuvens e foi melhorando aos poucos. Ainda bem que não choveu, porque senão iria ser foda sair dali. Seguimos rumo ao Norte/Nordeste do PARNA e resolvemos ir à cachoeira do Bel que não pudemos conhecer ontem de tarde por causa das chuvas e das estradas muito escorregadias. Aquela passagem onde quase caímos num abismo estava mais seca e podemos passar numa boa. Encontramos lindas paisagens no estilo das serras de MG e do RS. Depois de uns 15 km avistamos a belíssima cachoeira do Bel. Na verdade são duas cachoeiras, ou seja, a de cima é chamada de Bel e a de baixo de Pedra Verde. Entramos numa estradinha ainda mais precária e passamos por uma fazenda onde se encontra uma corredeira que vai para o Poço do Valtenor, o qual se localiza mais abaixo das duas cachoeiras anteriores. Havia uma moça super simpática que nos atendeu. Perguntei para ela como chegávamos ao “pé” da cachoeira e ela me falou para caminharmos até a próxima fazenda ali ao lado que o sobrinho dela de oito anos poderia nos acompanhar até lá. A caminhada foi digna de um filme, ou seja, por uma trilha aberta com os campos de pastagem abaixo, os morros bem pertos e a presença constante da cachoeira do Bel ao lado de nós. Falei com a mãe do menino indicado pela por aquela moça simpática da outra fazenda e ela o deixou nos guiar. Caminhamos um pouco pelas pastagens e chegamos à mata. O local era bem fechado e existia uma trilhazinha quase apagada para o “pé” da cachoeira. Em 10 minutos chegamos à cachoeira e a vista era linda demais. Uma nuvem de pingos se formava e despencava para baixo. Não havia nenhum laguinho no “pé” da cachoeira, mas dava para chegar bem de perto e tocar no paredão dela. Foi possível avistar somente 1/3 de toda a cachoeira dali daquela parte, pois ela é tão alta que o restante só é visto de longe. Ainda havia uma outra quedinha de uns 20 m de altura antes das duas quedas principais. Achei essa área da cachoeira super propícia para a prática de rapel, pois a queda possui uns 130 m de altura sobre um paredão maciço, limpo e espaçoso. Tirei algumas fotos, vimos um bando de passarinhos brancos e pretos chamados de lavadeiras e depois voltamos para o carro. O menino vinha o tempo todo conversando e eu ria de seus contos. Paramos na casa da tia dele e ela nos deu dois cocos para bebermos sua água. A moça era humilde, mas tinha tudo bem limpo e organizado. O seu pomar estava cheio de frutas. Sua chácara ficava no alto de um morro, cercada de pastagens abaixo e com a visão permanente da cachoeira do Bel à frente. Realmente era um lugar bem bonito, tranquilo e aconchegante. Daria para fazer um hotel-fazenda e tanto ali. É uma pena que esse povo teria que sair dali para a criação do PARNA Alto Cariri. Imagina a pessoa construir com todo o carinho o seu canto e depois ter que sair por causa disto. Às vezes não tem indenização que pague o valor sentimental da propriedade. O governo sabe escolher muito bem os lugares para se criar os PARNAs, ou seja, só lugar bonito, mas não parece não se importar com quem se localizava ali antes nos lugares.
Depois de um papinho com a moça e com o menino fomos em direção à Eunápolis-BA. Dirigimos mais uns 50 km na terra, subindo as serras novamente, beirando e entrando às vezes dentro dos limites do PARNA. Toda essa região é muito bonita mesmo. Encontramos outros remanescentes da Mata Atlântica com mais uma grande variedade de flora, lindos riachos e vimos mais algumas aves e alguns macacos-muriquis.
Após termos conhecido uma área mais ao Norte, onde havia um lindo açude começamos a voltar e ir na direção de Eunápolis-BA. Num certo trecho vimos uma grande extensão de eucaliptos derrubada para celulose. Eram pilhas e mais pilhas da madeira e com uma altura cinco vezes maior do que a minha camioneta. Concluí que devia ser alguma regra imposta pelo ICMBio para que os proprietários derrubassem logo os seus eucaliptos para a criação do PARNA, a fim de que posteriormente houvesse o replantio de espécies nativas. Descobri que o governo chegava a dar 20 anos para que essas madeireiras retirassem todos os eucaliptos e pinus da região dos PARNAs. Comprovei esse fato nos PARNAs Araucárias e Campos Gerais quando os conheci.
Gostei muito dessa região do PARNA Alto cariri e percebi que ela tem tudo para virar um point turístico de aventuras e de esportes radicais, assim como de pesquisas. Esse lugar pode vir a se tornar como o PARNA Serra do Cipó, o PARNA Chapada Diamantina, o Jalapão, entre outros. Para quem pode e se anima, seria interessante começar a investir agora por ali, como construir um hotel-fazenda com chalezinhos aconchegantes, oferendo passeios a cavalo, de moutain-bike e etc, pois existem muitos atrativos e a paisagem é muito bonita por ali.
SUGESTÕES:
Em alguns trechos de serra seria importante construir um certo calçamento para se evitar eventuais acidentais que podem se tornar até fatais por causa dos abismos ao redor. Postos ou bases do ICMBio também são necessárias em áreas estratégicas para uma melhor fiscalização.
OBSERVAÇÃO:
As informações aqui contidas são meras experiências passadas por mim neste PARNA e em suas redondezas. Portanto, não me responsabilizo pelos riscos e problemas que possam acontecer e nem em garantir que tudo dará certo para propensos visitantes a este PARNA e as suas redondezas. Cabe a cada propenso visitante se responsabilizar pelas suas decisões e atitudes, procurando sempre um comportamento lícito e compatível com o local, com a fauna, com a flora e com as pessoas ali residentes e nativas. Além de que deverá seguir as regras do ICMBio, as regras de segurança e o uso adequado de seus equipamentos durante toda a visitação deste PARNA e de suas redondezas.