PARQUE NACIONAL NASCENTES DO LAGO JARI

1ª PARTE

2ª PARTE

3ª PARTE

4ª PARTE

5ª PARTE

6ª PARTE

7ª PARTE

 

INFORMAÇÕES IMPORTANTES:

 

QUANDO IR: 

Prefira ir quando as chuvas estiverem parando e os rios e igarapés começando a secar, pois desta forma ainda dará para navegar e ainda encontrará água para beber. Ou seja, entre abril e maio. Porém, na época da seca aparecem mais praias e é possível avistar mais animais selvagens como os peixes-bois a partir de junho.

 

O QUE LEVAR:

Leve a autorização concedida pelo ICMBio e avise o chefe do PARNA pelo menos 15 dias antes de sua ida. Além disso, leve uma boa barraca, almofada ou colchonete inflável para dormir, cobertor fino (na Amazônia há a possibilidade de fazer noites frias), capa contra chuva, uma boa bota de cano longo (as de borracha espessa protegem tanto de picadas de cobras quanto de se molhar ao atravessar charcos e pântanos), meião ou meias especiais, esparadrapo e algodão, copo e talheres dobráveis, repelente, protetor solar, boné, óculos de sol, roupas de uso pessoal (prefira as de nylon ou de material leve), um bom GPS com as coordenadas já marcadas, power bank (carregador para aparelhos eletrônicos), lanterna de testa, aparelhos eletrônicos pessoais, barras de cereal, bananas desidratadas, uma ou outra bebida energética, hipoclorito de sódio para pôr na água de rios suspeitos, produtos de higiene pessoal, etc.

A água pode ser levada em garrafões de 20 litros no caso de ir de voadeira.

Leve um tênis daqueles a prova d’água para ficar na voadeira e ao descer nas ilhas de areia.

Leve um Específico Pessoa para amenizar eventuais picadas de animais peçonhentos para as primeiras horas.

           

COMO CHEGAR:

De avião comercial para Manaus-AM e de lá pegando um recreio até Beruri-AM ou Arumã-AM. Esta última é distrito de Beruri-AM e sofreu um forte desmoronamento em 2023 acabando com quase toda a vila. Dali navega-se mais um pouco pelo rio Jari e chega-se à vila Sta. Luzia, onde inicia-se o PARNA.

Pode-se ir também pegando a BR-319 de Manaus-AM à ponte do Veloso ou à Toca da Onça e à pousada do Gaúcho e combinar com alguém da vila Terra da Morte-AM ou Monte das Oliveiras-AM para buscar nesses locais. Porém, nesse caso será preciso estar na época da cheia para navegar o igarapé Água Branca ou Caetano até a ponte do Veloso ou também na seca para navegar o rio Jari e caminhar uns 5 km da Toca da Onça e da pousada do Gaúcho até o mesmo numa trilha abandonada e bem fechada.

           

CIDADES DE APOIO:

As cidades de apoio mais próximas para conhecer este PARNA são Beruri-AM, a vila Arumã-AM (distrito de Beruri-AM) e a vila Sta. Luzia (também distrito de Beruri-AM). Beruri-AM tem estrutura necessária como hotéis, bancos, hospitais, etc. Arumã-AM perdeu quase tudo de sua pequena e simples estrutura por causa do desmoronamento que houve em 2023, porém, é possível dormir em flutuantes a combinar com seus proprietários. Lembrando que as condições são simples. Sta. Luzia-AM possui uma pequena estrutura pouco divulgada e procurada, com condições simples também.

Sta. Luzia-AM está em frente do lago Jari com uma vista espetacular, porém, o PARNA só começa mesmo a cerca de 100 km dali na foz do igarapé Água Branca ou Caetano. Existem outras vilas nas margens do lago Jari, porém, todas sem muitos recursos.

 

ATRAÇÕES:

O lago Jari em si é espetacular e na época da seca aparecem dezenas de lindas praias, há muita fauna e flora exótica e a simpatia dos ribeirinhos nas vilas ao redor do lago. As águas são escuras e mornas.

Navegação no lago e no rio Jari e em alguns de seus afluentes.

Há uma trilha meio abandonada de uns 5 km que liga o rio Jari à BR-319, onde se encontra a Toca da Onça e a pousada do Gaúcho. Lá é possível encontrar resquícios da época em que os militares construíram a BR-319 na área de Humaitá-AM à Manaus-AM.

 

DICAS:

Cuidado ao tomar banho nas praias do lago Jari porque existem muitos jacarés-açus, arraias e outros animais fluviais e lacustres da Amazônia.

Tenha autorização do ICMBio para entrar no PARNA.

Nunca ande sozinho na mata e nem nos rios e lagos.

 

RISCOS:

Raios, ventanias, chuvas fortes, inundações, desmoronamentos, etc.

Animais peçonhentos, onças, arraias, jacarés-açus, entre outros animais selvagens.

Acidentes de forma geral, se perder, afogamentos, cortes, picadas, mordidas, insolações, desnutrições, estresses, insônias, intoxicações alimentares, adquirir vermes, doenças tropicais, eventuais ataques indígenas, assaltos, sequestros, etc.

Na foz do rio Jari há o risco de encontrar piratas nas embarcações.

 

DIÁRIOS:

Quando eu estava realizando a 1ª Travessia/Expedição à força humana do ponto extremo norte ao ponto extremo sul do Brasil passei pelos limites terrestres desse PARNA.

Vi vários animais, como um casal de mutuns que me deixou chegar bem pertinho para filmar, duas araras-canindés que estavam numa posição bem estratégica em seu ninho na frente da estrada, uma cobrinha verde parada na estrada que me deixou filmá-la e depois saiu toda brava e rebolando, e um teiú grandão que fez um barulhão no mato e eu imaginei que era uma onça saltando para me atacar.

As extremidades dessa estrada, naquele trecho, não eram como na maioria das outras, ou seja, de 3 a 5 m de distância dos pneus dos carros, mas sim de 30 a 50 cm de distância e, qualquer vacilo ali, o carro sairia da estrada e poderia tombar.

Encontrei vários trechos nessa estrada onde a Floresta Amazônica a invadiu pelas suas laterais, sobrando só o carreiro de rodagem no centro, que nem sempre estava em boas condições.

Depois encontrei uma turma da Embratel consertando alguns postes de fibra ótica e eles já sabiam que iríamos dormir na outra torre que eles administravam, pois certamente o pessoal da antena Aristóteles os havia avisado anteriormente por rádio da nossa passagem por lá ontem à noite.

Passei por uma placa que dizia ser ali o Parque Nacional Nascentes do Lago Jari, administrado pelo ICMBio e percebi que a natureza por ali estava exuberante.

A todo o momento nesse trecho, passávamos por lagoas que eram verdadeiras maravilhas da natureza, ou seja, com suas águas cristalinas e repletas de vida. Porém, eu não sabia por quanto tempo isso ainda iria durar, pois verifiquei a existência de alguns caçadores que perambulavam de vez em quando por ali. Se essa estrada fosse recuperada, daria para ter uma maior e melhor fiscalização.

Pedalei mais 30 km e chegamos ao nosso destino, ou seja, na outra antena da Embratel, chamada Brasil, e dessa vez ela estava do nosso lado direito. Lá havia um guarda super gente boa que nos recebeu bem e nos ofereceu alimentação e abrigo. Creio que pelo fato da solidão por ali ser muito grande essas pessoas gostavam de receber e de tratar bem qualquer um que estivesse passando por essa difícil e quase abandonada estrada. Com isso, essas antenas da Embratel serviam de apoio para quem quisesse se aventurar por ali.

Apesar da estrada molhada de hoje de manhã, o dia havia rendido bem e chegamos cedo ao nosso destino. Com isso, eu ainda teria tempo para arrumar um monte de coisas pendentes antes de anoitecer.

Fomos até a uma ponte ali perto, onde há um rio de água escura e com correnteza moderada, e tomei um banho de primeira qualidade.

Aproveitei que ainda estava cedo e arrumei aquelas coisas pendentes, como minha barraca, que estava com defeito nas varetas e o gerador que não ligava direito. Logo depois, preparamos o jantar.

O guarda nos disse que algumas dessas pontes de madeira estavam quase desabando um mês atrás, mas que foram reparadas por eles mesmos. Disse também que, no ano passado, três amigos dele morreram ao tombar a caminhoneta em uma dessas pontes.

Até que não estava tão ruim assim a aventura na BR-319, pois estávamos conseguindo encontrar pessoas muito simpáticas que nos ofereciam abrigo. Comida, tínhamos de sobra, mas sempre era bom aceitar e dividir com as outras pessoas.

Hoje completei 57 pontes de madeira e percorri 80 km pedalados.

Ontem à noite fez um calor tremendo e tive que dormir totalmente pelado dentro da minha barraca. Sorte que eu a havia fechado bem antes de ir dormir e nenhum mosquito conseguiu entrar.

Acordei às 6h, tomamos café e saímos por volta das 7h30.

Logo depois, passamos por mais uma ponte superperigosa, onde não havia pilar de sustentação. Os barrancos onde estavam apoiadas as madeiras estavam rachados e desabando. Concluí que a qualquer momento ela iria ruir.

Vi alguns jacus e araçaris passarem na minha frente e ainda bem que até naquele momento não havíamos visto nenhuma cobra. Eu teria que ter mais cuidado dali pra frente, pois tudo indicava que a estrada iria ficar com a mata mais próxima ainda e com isso, os riscos aumentariam.

Lá pelas 10 horas, parei morto de calor e me deitei debaixo da torneirinha do tanque de fibra. Deixei a água cair em cima da minha cabeça e do meu corpo e me senti refrescado e disposto para prosseguir. Ainda bem que eu havia inventado de colocar tal torneirinha, pois foi algo bem útil.

Como já havia previsto, a estrada começou a ser invadida pela Floresta Amazônica em todo o seu redor. Percebi também que nesse trecho não tinha nenhum pedaço ou resto de asfalto, parecendo que havia sido arrancado. Com isso, o mato se alastrou mais rapidamente e tive que redobrar a minha atenção por causa dos eventuais animais selvagens que poderiam aparecer a qualquer momento.

Num pequeno trecho onde havia uma certa quantidade  de  lama, vi  algumas  pegadas frescas de onça e resolvi parar para filmar. Elas eram maiores do que a minha mão. Fiquei com receio de alguma onça estar ali por perto me observando. Com isso, esperei o carro de apoio chegar, peguei a outra máquina fotográfica que possui zoom e comecei a olhar para todos os lados com muita atenção. Creio que ela estava ali por perto e talvez eu não conseguisse vê-la.

Pedalei mais uns 500 m pra frente e de repente ouvi um barulho no mato em uma área um pouco mais aberta. CARAMBA, uma onça! Levei um susto de lascar e fiquei ali quase totalmente imóvel. Ela se levantou meio desconfiada, olhou pra mim, me gelei e pensei que ela fosse me atacar. Percebi que ela estava meio zonza, talvez porque tinha acabado de acordar de uma soneca. Eu já estava com a outra máquina fotográfica em mãos e então comecei a fotografá-la várias vezes sem chamar muito atenção e tentando me movimentar o menos possível. Depois o carro de apoio foi se aproximando com o seu motor a diesel barulhento e percebi que ela o olhou. Ainda bem que ela foi se retirando do local bem devagarzinho. Putis, mais uma vez o carro de apoio havia me ajudado! Essa foi por pouco! E o pior é que parece que nem daria tempo de pegar alguma bomba para tentar espantá-la! Eu ainda fiquei por muito tempo depois preocupado e a todo o momento olhava para trás para ver se ela não estava me seguindo.

Até por volta das 12 horas e 30 minutos eu havia pedalado 60 km e então paramos para almoçar, pois a fome estava de lascar. Tivemos que parar num lugar sem sombra mesmo e eu ainda continuei meio atento por causa daquela linda onça que havia aparecido pouco tempo atrás. Fiquei em pé enquanto comia algo e a todo o momento observava tudo ao nosso redor. Nunca se sabe se ela apareceria para fazer um “lanchinho” ali com a gente.

Até naquele momento não havíamos encontrado ninguém na estrada.

Já havíamos passado por 89 pontes de madeira num total de 125 e algumas delas estavam muito ruins ou haviam sido recuperadas a pouco tempo. Foi possível ver os destroços de algumas delas logo abaixo sobre os rios ou igarapés.

Por volta das 14 horas, continuamos e depois me refresquei de novo com a água do tanque de fibra. Ainda bem que eu o havia enchido lá na cidade de Castanho-AM antes de continuarmos com essa travessia/expedição, porque senão eu estaria desesperado para tomar banho em algum desses rios ou igarapés de difícil acesso.

Chegamos aproximadamente às 15 horas e 50 minutos à fazenda Catarina-AM, onde pedi autorização para acamparmos. Os proprietários me disseram que ficaram isolados por quase três meses com a enchente do rio Puruszinho, que foi fortemente influenciado pela surpreendente cheia do rio Madeira. Disseram também que esse rio subiu até 1,5 m e alagou uma extensão de 3 km da estrada, onde ninguém conseguia passar. Nesses 23 anos que eles moravam ali, nunca tinham visto ou ouvido falar de coisa igual e fazia apenas duas semanas que as coisas haviam se normalizado com a chegada do verão (nome dado pelos nativos na época em que as chuvas diminuem). Portanto, ficou provado mais uma vez que a minha parada de quase três semanas lá em Manaus-AM estava muito bem relacionada com a enchente que houve por ali e por isso tivemos que esperar. O telefone dali estragou com a cheia e por isso eu não consegui falar com o senhor Cat.

Enquanto eu armava a minha barraca numa grande área de gramado, um bicho chamado jacamim, o qual se parece com uma galinha-d’angola, com cores preta e branca, veio todo confiante para o nosso lado. Ele foi criado na fazenda Catarina-AM desde filhote e gostava que as pessoas lhe fizessem carinho. O coitado nunca viu um de seus semelhantes e parecia não se simpatizar muito com as galinhas daquela fazenda. Ele fazia um barulho parecido como de um macaco bugio e vinha correndo para a nossa direção, o que era engraçado. Ele deixou a gente pegá-lo e levantá-lo e ficava nos seguindo o tempo todo querendo comida.

Virei um toco do chão para poder armar a barraca e apareceu um monte de cupins. O jacamim percebeu, ficou empolgado e veio correndo que nem um louco para devorá-los de uma só vez. Depois desse “banquete”, ele deu um tempo, se afastou de nós e não o vimos mais. Deve de ter ido dormir.

Ouvi várias araras canindés gritando ali por perto e na medida que o sol foi se pondo, mais e mais bichos faziam barulhos nas redondezas. Realmente estar ali naquela fazenda  isolada foi muito relaxante. Lembrei-me da época que eu ia na fazenda dos meus pais no interior de Goiás, quando via e ouviu muita bicharada.

Falei para o dono daquela fazenda que eu havia visto uma onça a poucos quilômetros atrás e ele me assustou ao dizer que dali da fazenda Catarina-AM até perto do povoado Realidade-AM já haviam sido vistas várias onças também. Com isso, teríamos que prestar muita atenção de novo. Caramba, parecia que ali tinha mais onça do que no Pantanal! Será que era por causa da época, que segundo alguns nativos dali, era propícia para a reprodução desses animais? Se bem que eu já tinha ouvido que o mês de agosto que é o mais propício.

Realmente a maior alegria e emoção até agora dessa travessia/expedição foi ter visto uma onça pintada solta e tão perto de mim. Essa nunca mais eu iria esquecer!

Ainda bem que hoje havia feito sol na maior parte do tempo e eu consegui pedalar 83 km na raça e com muita atenção.

Fiquei bastante cansado, mas também pudera, pois já eram dias se acumulando nesse trecho da precária e difícil BR-319.

Após muitos anos, aproveitando uma expedição que eu estava fazendo no rio Purus com o amigo Mac, resolvi passar e conhecer bem melhor esse PARNA novamente e dessa vez entrando pela foz do rio e do lago Jari. Até agora todo o cronograma que eu havia feito estava dando tudo certo e ainda sobraram alguns dias para descansar e para ajeitar tudo.

Ontem à noite o Mar ficou conversando sobre os perigos de piratas ou assaltantes por aquelas bandas e disse que o pior mesmo é no rio Solimões de Coari-AM à Tabatinga-AM e seus afluentes ao redor como o Japurá, Içá e Javari. Antes disso, o pastor havia dito que ali em Arumã-AM há uns oito anos atrás também estava super perigoso. Os bandidos andavam armados, se drogavam ao ar livre e quase havia alguma briga ou assassinato por ali. Disse que ele mesmo foi uma vez à Beruri-AM, pois Arumã-AM é distrito desta para falar com o delegado para ver se melhorava um pouco a situação daquela vila. Disse que um desses traficantes morava ali no lago Jari e depois que a polícia matou o infeliz as coisas se calmaram. Disse também que os piratas andam encapuzados e com motores super potentes que ultrapassam até os da Marinha e preferem assaltar as voadeiras solitárias do que os recreios. Por isso, que as pessoas me olhavam com atenção quando eu passava nas manhãs frias com a minha máscara e eu não sabia disto. Ainda bem que não houve nada de errado. É triste saber disso, pois esta região era tão tranquila e agora tem que se tomar cuidado ao navegar por essas bandas.

De madrugada ouvimos uma voadeira indo para lá e para cá ali nas mediações do flutuante onde estávamos. Ficamos meio preocupados com receio de serem bandidos. Pararam ali no flutuante do Mar e gritaram que haviam trazido gelo e onde era para colocá-lo. O Mar então gritou que era para colocar no freezer lá de fora e depois ainda ficaram circulando por ali de casa em casa entregando mercadorias. Ainda bem que havíamos transferido tudo por precaução para dentro do flutuante que dormimos e amarramos a nossa voadeira e o motor com corrente e cadeados. Por causa disto, dormi pouco e mal outra vez. Putis, eu queria ir logo para o mato para ficar livre dessa barulhada toda!

O dia estava lindo, tomamos um bom café e partimos dali às 8 horas rumo ao lago Jari. Havia várias casinhas e flutuantes por ali e alguns canais. Mais para frente há um paraná que vai dali até o rio Purus por outro trecho. Vi várias flores de cores e de formas diferentes e uma delas era do tipo campainha e na cor roxa clara. Apareceu também um tal de abacaxi-do-mato com seu cacho de flores vermelhas.

Chegamos ao lago e ficamos impressionados com a beleza do local. Do lado esquerdo está a vila Sta. Luzia e fomos ali para conhece-la. Subimos uma escada alta, bem feita e bem íngreme. De um lado sobe e do outro desce. A vista lá de cima é fenomenal e a vila é bem cuidada com uma graminha verde e rala que protege o barrancão. Há uma igreja linda e as pessoas estavam fazendo uma grande faxina em tudo. É incrível como há lugares fascinantes neste nosso Brasil e pouco conhecidos. Mas tomara que continue assim mesmo, pois já conheci outros lugares que no começo eram um paraíso para se explorar e que agora estão altamente comerciais. Como por exemplo, Bonito-MS e Jalapão-TO. Perguntamos ali onde que morava o Ald porque o estávamos procurando para ser o nosso guia. Nos indicaram mais ou menos e fomos adiante. Este lago é imenso, ou seja, mede uns 50 km  de extensão por uns 5 km de largura. Penso que deveriam colocá-lo também como parte do PARNA e não somente as suas nascentes. Desta forma ele seria mais protegido, pois só entrariam pessoas ali com a devida autorização. Além disso, os moradores ribeirinhos dali não aumentariam mais e eles ainda poderiam ter um certo ganho como guias e com pousadas. Assim como outros diversos PARNAs do Brasil.

Seguimos beirando a margem esquerda do lago para quem o está subindo e depois de se informar em mais duas pequenas vilas nos disseram que teríamos que atravessar o lago para encontrarmos o Ald. Ainda bem que naquele momento não havia nenhum banzeiro (ondas) no lago, pois nos disseram que dependendo do horário apareciam uns de lascar. Notei de longe que havia algumas casinhas na outra margem longe uma das outras e por intuição imaginei ser uma delas a casa do Ald. Dito e certo era lá mesmo. O local chamado de vila Morada Nova era bem agradável e tinha bonitas árvores com aquela graminha verde e rala embaixo e a água era limpa e com um tom meio escuro claro. Tinha uma árvore seca toda coberta de cupinzeiro. Perguntamos pelo Ald e apareceu uma senhora, que se identificou como irmã dele toda desconfiada. Falei que queria contratá-lo para atravessarmos o PARNA até a BR-319 e de repente o Ald apareceu de dentro de sua casa de madeira no estilo palafita. Era um cara baixinho, mas forte e meio desconfiado quis saber mais. Achei estranha toda essa desconfiança e além do mais eu disse que o Mar, lá de Arumã-AM o havia recomendado. Aí então descobrimos o motivo. Foi porque há alguns anos atrás um grupo de traficantes havia contratado o Ald para a mesma função, ou seja, cruzar este PARNA até a BR-319 e lá esperar os parceiros que iriam surgir com a droga. Acabou que a polícia já estava a par disto e interviu na hora levando todo mundo para a cadeia. O Ald não sabia de nada e depois de muito sofrimento e de dias distantes dali de sua casa deu notícia a seus familiares e foi solto sem problemas. Foi um susto que ele nunca mais esqueceu e poderia ter sido morto pelos traficantes depois de tudo concluído. Entendi a situação e mostrei a minha autorização de visitação do ICMBio para colher imagens do local. Só assim que ficaram mais tranquilos e acreditaram em mim. Depois de tudo acertado saímos dali e fomos rumo à Terra da Morte ou também conhecida como Monte das Oliveiras, a qual era a última vila antes das nascentes do lago Jari. Passamos logo no começo por uma ilha alta, onde o Ald disse existir uma linda praia, mas que ficaria para a nossa volta e depois por algumas árvores secas dentro do lago. Na época do verão ou na seca dizem que aparecem dezenas de praias com areia fina e branca e muitos animais como arraias, jacarés-açus, peixes-bois e etc. Já coloquei este lugar como um especial na minha lista de poucos lugares que eu penso em retornar ou que já retornei.

Chegamos à vila Montes das Oliveiras e percebi que a mesma era bem ajeitada e tranquila e assim como as outras tinha energia elétrica, porém, de gerador, escola e wi-fi de um certo morador. Paramos num flutuante da família do Sal e o Ald nos apresentou e procuramos mais uma pessoa para ir conosco. Pensei e decidi que deveríamos levar uma pessoa mais jovem e forte para ir de proeiro cortando os galhos e obstáculos que poderiam aparecer lá no igarapé Caetano, que mais tarde descobri que também se chama Água Branca. Apareceu um rapaz chamado Man e depois de tudo acertado também nos despedimos e seguimos em frente após o gostoso almoço que comemos ali feito pela Gis.

Logo depois começaram a aparecer canais e mais canais cercados me mata densa. Tínhamos que navegar num verdadeiro ziguezague. O Ald ia indicando certinho o caminho e tudo estava de acordo com as coordenadas que eu havia marcado no meu GPS. Certamente eu não precisaria destas pessoas como guia, pois assim como em outros rincões da Amazônia eu sempre consegui chegar onde queria por conta própria de localização adquirida por mim mesmo nas minhas observações no Google Maps, mas sempre era bom levar mais pessoas e o número ideal é no mínimo quatro pessoas, porque nas caminhadas e nos acampamentos pelo mato as onças têm mais respeito quando notam a presença de mais pessoas.

Vi gaviões, garças, biguás, entre outros. Passamos pelo igarapé Água Branquinha e logo depois chegamos ao igarapé Caetano ou Água Branca, onde iniciava o PARNA. Havia uma placa do ICMBio ali virada ao contrário e meio escondida. Assim como no lago Jari havia igapós (quando as águas invadem a floresta) para todos os lados e encontrar uma terra firme ali seria difícil. Vi vários cupinzeiros e casas de caba (marimbondos) de diversos formatos e muitos ninhos de japiins e de japus. Geralmente os dos japiins estão ao lado de casas de cabas e os outros não. Vi novamente aquelas lindas bromélias com flores vermelhas que por ali são conhecidas pelo nome de abacaxi-do-mato e outras plantas que pareciam com as comigo-ninguém-pode. Aliás, variedade de flora era o que não faltava por ali e algumas bem exóticas.

Às 17 horas paramos ao encontrarmos um barranco a cerca de uns 40 cm acima do nível do igarapé e montamos o nosso primeiro acampamento ali. O Mac amarrou uma corda de uma árvore a outra e estendemos uma grande lona para proteger todos nós de eventuais chuvas. Havia muitos líquenes diferentes por ali.

O Ald ficou contanto os causos, estórias e histórias de suas experiências na mata junto com o Mac.

Hoje percorremos 200 km de navegação, sendo 100 km de Arumã-AM à vila Monte das Oliveiras e os 100 km até o nosso primeiro acampamento no igarapé Caetano ou Água Branca.

À noite a chuva ficou nos rodeando o tempo todo, mas ainda bem que não veio. A pior coisa que tem na floresta é armar ou desmontar o acampamento debaixo de chuva, pois tudo fica uma zona.

Dormi na rede com um mosquiteiro improvisado e ainda bem que dormi cedo porque quando foi às 4 horas da madrugada acordei com vontade de urinar e reparei que o piso estava cheio de minúsculos cupins. Eles tinham subido nas malas e em tudo mais. Ainda bem que ficaram só na parte debaixo do meu mosquiteiro. Aí sacudi tudo para que eles saíssem e ainda bem que não eram do tipo guerreiro que mordem. Acabou que todos nós acordamos e esperamos o sol clarear lá para as 5h30. Tomamos café e saímos dali às 7h30. Na verdade a água deste igarapé não tem nada de branco, mas sim é escura como o lago e o rio Jari. Logo cedo vi uma linda garça-real e uma marrequinha seguiu voando na nossa frente. Passamos por alguns desmoronamentos dos barrancos que apareciam de vez em quando. Um deles havia invadido todo o igarapé e juntou um monte de destroços de árvores e de galhos, mas deu para passar pelo canto. Vi frutas e flores diferentes. Uma fruta era a de um cipó e parecia com guaraná e uma flor era de capurama. Vi patos-selvagens e outras pequenas aves. Até naquele momento não tinha visto nenhum animal grande, principalmente algum réptil ou mamífero. Apareceram vários pés de tabocas (bambu com espinho) e de tiriricas (espinhos). Árvores grandes bloqueavam de vez em quando a nossa passagem e aí tínhamos que passar pelos cantos mais altos ou até mesmo cortá-las quando necessário. Tinha uma folha toda cheia de espinhos e achei interessante.

Fomos nos aproximando do trecho que eu tinha visto nas fotos do satélite que seria de uns 6 km meio fechado, uns 8 km fechado e uns 3 km super fechado. Começamos a ir devagar e a cortar os galhos e árvores que estavam bloqueando a passagem. O igarapé estava um pouco mais baixo por ali, mas ainda tinha muita água que formavam grandes igapós e o Ald disse que na época da seca é quase que impossível passar por ali. O capitão-do-mato, ou seringueiro, ou Sebastião ou frifrió deu as caras e começou a cantar. Descobri um novo nome deste passarinho, ou seja, ele é chamado por ali de trovãozinho. Apareceram vários insetos diferentes que caiam em nossa voadeira. Um deles era um grilo todo camuflado. Havia uma árvore que parecia em eucalipto. Vimos um tronco de uns 5 m de comprimento da ponte onde queríamos alcançar atravessado no igarapé. Estranho este tronco ter chegado até ali. Vi alguns cogumelos de cor laranja e de outras cores. Depois faltando uns 500 m para chegarmos à ponte do Veloso o igarapé ficou paralelamente à BR-319 e às 13 horas alcançamos o nosso objetivo. A ponte do Veloso estava ali toda imponente com seus seis pilares fortes de madeira. Atravessamos a ponte por debaixo dela e ainda percorremos cerca de uns 500 m adiante. Pouquíssimas pessoas já tinham feito este percurso. Talvez somente duas pessoas antes de nós. Conquista realizada! Encostamos ali na margem esquerda para quem está subindo o tal igarapé e o Mac começou a preparar o almoço. Foi uma emoção grande ter chegado até ali depois de uns 140 km navegando neste igarapé. Subimos até a ponte, tiramos fotos e filmamos e depois foi possível ver e ouvir a uns quase 2 km dali um trator trabalhando na BR-319. Lembrei-me de quando passei por ali de bicicleta há muitos anos atrás realizando a 1ª Travessia/Expedição à força humana entre os pontos extremos do Brasil. Cheguei a ver uma onça que me encarou a uns 50 m de distância e depois se levantou e foi embora.

Almoçamos bem, levantei o drone e depois fomos caminhando até o trator para ver o que estavam fazendo. Vimos uma pegada recente de onça e das grandes. Lá havia uns trabalhadores da firma LCM construindo uma outra ponte de madeira sobre outro igarapé. Engraçado que a sigla desta firma ficou quase igual ao meu nome, ou seja, faltou só o “O” de Osório entre o “C” e o “M”. Conversamos com o pessoal e eles ficaram curiosos e espantados por termos vindo lá do rio Purus a mais de 200 km dali. Falei que estávamos explorando o PARNA e levamos uns pregos gigantes que eles estavam usando para pregar as grossas tábuas da ponte como lembrança. Eles nos disseram que estavam acampados ali na Toca da Onça há uns 40 km, onde queríamos ir depois pelo rio Jari. Disseram que haviam retirado todo o asfalto velho dali daquela BR e em alguns trechos tinha uma camada de pedras com britas. Antes de realizar esta Expedição pesquisei e perguntei aos conhecidos daquela região e todos me disseram que esta BR-319 estava em péssimas condições depois que a haviam reaberto aos ônibus e aos caminhões. Também pudera estes tipos de veículos destroem tudo, até mesmo o asfalto. E pelo fato dali e no Acre o asfalto ser instalado diretamente em cima do barro tabatinga aparecem os buracos e estragos com certeza. O certo mesmo seria calçar todas estas BRs com pedras e britas para depois sim receberem o asfalto, senão vão ficar sempre se destruindo. Quando eu passei por ali há muitos anos atrás esta BR estava abandonada desde 89 e com isso estes veículos grandes não circulavam mais por ali. Por outro lado, mesmo a selva, engolindo aos poucos a BR, a mesma ainda dava para circular veículos 4×4. Só as pontes que eram perigosíssimas. Pensei que agora estas pontes estavam sendo substituída pelas de concreto e que as obras de recuperação estavam mais adiantadas.

Voltamos para a ponte do Veloso e partimos dali. Em todo este tempo de mais de 3 horas de duração não vimos nenhum carro passar por ali.  Alguns mangangás ficaram rodeando a nossa comida na voadeira. Apesar de raramente atacarem, quando acontece dizem que suas mordidas são  muito doloridas. Lembrei-me de uma vez que no PARNA Serra do Pardo-PA um nativo disse que o meu drone parecia com um mangangá. Vimos também uma ariranha, mas ela foi muito rápida e não deu para fotografá-la. Havia alguns líquenes amarelos bem bonitos por ali e alguns abacaxis-do-mato.

Acampamos a poucos kms dali só para não dar chance de algum assalto que poderia acontecer ali naquela BR.

Acordamos cedo como de sempre, tomamos café e partimos dali do segundo acampamento às 7 horas. Amanheceu um sol maravilhoso e é um alívio depois que a gente sai dos acampamentos porque os carapanãs ficam para trás. Voltamos um pouco mais rápido porque estávamos descendo o igarapé e já havíamos eliminado os principais obstáculos na vinda. Ouvi novamente o canto do trovãozinho. Quando a gente passava nas galhadas caía mais um monte de insetos na nossa voadeira, como aranhas, grilos, formigas, lagartas e até mesmo cabas (marimbondos). Teve uma hora que contei umas 10 aranhas de espécies diferentes. O motor de popa muitas vezes passava espremido por debaixo das árvores caídas. Vi um bico-de-brasa e algumas sementes ou frutas que pareciam macacos pendurados. Mais para frente apareceram alguns macacos-barrigudos, mas não deu tempo de registrá-los. Por ali também há macacos-pregos, macacos-de-cheiro, guaribas e paraoacus. Eram galhos e árvores atravessados para todos os lados, por cima e por baixo. Toda vez que nos aproximávamos de algum toco ou árvore seca a primeira coisa que se prestava atenção era nas possíveis cobras que poderiam estar por ali. Numa dessas árvores secas havia uma aranha toda esquisita e a registrei. Vi e registrei melhor desta vez uma mata de samambaias e depois alguns barrancos onde a parte orgânica, rica em húmus, despencava por cima rumo ao igarapé. Por ali havia poucas sororocas ou bananas-bravas. Em compensação havia vários tipos de palmeiras, como açaí, najá e babaçu e algumas delas estavam caídas e se esforçando para sobreviver na margem do igarapé. E pensar que essas plantas chegam a ficar por mais de seis meses dentro da água. O Ald disse que uma vez o inverno (chuvas) foi muito longo e várias plantas morreram afogadas. Aquele tipo de borboleta azul apareceu e nos seguiu por um bom tempo. Um morceguinho desses que ficam nos troncos secos sobre a água caiu em nossa voadeira e o retirei dali.

Paramos na margem e fomos conhecer um barreiro ali perto. Havia carreiros (caminhos) para todos os lados dos diversos tipos de animais que iam ali lamber o sal. Tinha sal natural do barro e um saco de sal pendurado numa árvore que com certeza foi colocado por algum caçador. Vi pegadas de antas, de veados, de porcões e de pacas. Ainda havia uma lagoazinha no barreiro também que estava cheia de carapanãs. Algumas frutinhas amarelas haviam caído das árvores e certamente foram alguns macacos que as comeram. Voltamos para a nossa voadeira e tentei usar o drone. O aparelho levantou voo, mas em seguida falhou e perdeu a comunicação. Ainda consegui jogá-lo numas árvores e ele caiu na água. O Mac pulou rápido e o pegou já afundando. Eita drone complicado com esses celulares! O jeito agora era deixá-lo se secar bem e torcer para que não tenha estragado. Passamos por mais barrancos, onde haviam vários buracos feitos geralmente por periquitos ou papagaios em busca de sal mineral. Uma bromélia gigante e colorida apareceu. Estávamos vendo as coisas com mais detalhes agora na volta porque não tínhamos pressa como na ida. Logo chegamos à parte limpa novamente e o Mac começou a correr com a nossa voadeira. Quando aparecia algo interessante parávamos como de sempre para registrar. Alguns graveteiros, Martins-pescadores e biguás queriam competir com a nossa voadeira e ficavam minutos nos acompanhando ou indo na nossa frente. Havia um tronco de árvore oco e com um grande buraco virado para o nosso lado. Daria uma toca perfeita ali. Paramos em frente daquele desmoronamento que tínhamos visto na ida e que tinha fechado o igarapé por algum tempo e aí sim deu para ver a dimensão dele. Devia de ter uns 30 m de altura e saiu arrastando tudo na frente até o igarapé Água Branca. Passamos por um trecho que havia várias folhas boiando e depois encontramos mais ninhos de japiins entre as casas de caba. Algumas garçinhas-brancas estavam amontoadas numa árvore e apareceu um lindo arco-íris de repente.

Chegamos à boca do igarapé Água Branca com o rio Jari e analisei se o combustível daria para irmos até a BR-319 pelo rio Jari e voltar. Pelas contas daria para voltar só até a metade do percurso e então resolvemos seguir até o Monte das Oliveiras por mais uns 40 km para tentarmos conseguir mais combustível por lá. Chegamos lá às 17 horas.

Dormi um pouco melhor na minha barraca armada ali mesmo na varanda do flutuante do Sal e o Mac em sua rede de sempre. Em conversa ontem à noite com o Sal soubemos que o irmão dele iria receber combustível vindo de Arumã-AM, mas que só chegaria hoje de tardinha. Combinei tudo com o irmão dele que tinha internet em sua casa e o jeito agora seria esperar. Eu iria aproveitar o dia de hoje para conhecer melhor o lago Jari, já que o mesmo se encontra na Zona de Amortecimento do PARNA.

O lugar ali é bem agradável e eu iria conhecer melhor a família do Sal com suas quatro filhas adultas, duas crianças e sua mulher, além da própria comunidade.

Logo de manhã tirei fotos de uma linda alvorada sobre o lago Jari. Tomamos um bom café com tapioca, ovo frito, banana frita e leite com café feito pela Gis. Um nativo passou na sua rabeta com sua linda filhinha loira de uns 2 anos de idade solta na proa. As crianças por aqui começam a navegar desde cedo. Um gavião-de-cabeça-branca apareceu em uma das árvores. Depois o Mac rebocou uma canoa na nossa voadeira e fomos com o Man num igapó ali no PARNA. Ancoramos a nossa voadeira e fomos remando a canoa naquelas águas escuras, calmas e ao mesmo tempo sombrias. Estas canoas são feitas pelos próprios nativos e ficam perfeitas. Logo no começo ouvimos um bicho gritando e ao nos aproximar vimos um filhote de tamanduá-mirim fora de sua toca e seus pais tentando salvá-lo do risco de cair na água. O bichinho era todo indefeso e não conseguia se agarrar na sua mãe. Ficamos ali de longe durante um bom tempo para ver no que ia dar. Depois a mãe subiu por dentro daquela árvore seca onde era a toca e foi brigar com o pai lá em cima das árvores. A mãe chegou a ficar de cabeça para baixo pendurada somente pela sua cauda. Parecia que eram pais inexperientes. Pressenti que o perigo havia aumentado e o filhote poderia cair a qualquer momento na água e morrer afogado ou ser comido por algum jacaré. Fui lá e o peguei colocando-o de volta para dentro da toca. A mãe voltou e parece ter ficado contente e fomos embora. Vimos depois uma serpente pequena que saiu nadando ao nos ver em sentido contrário. Vi também vários líquenes, musgos, bromélias, comigo-ninguém-pode, flores e algumas aves. Um desses líquenes estava ao redor de uma extinta casa de cabas. Havia uma frutinha redonda que era venenosa e vi uma teia de aranha que cercava uma área toda até chegar à superfície da água servindo como uma excelente armadilha para pegar os insetos. Vi um ninho solitário de japó. Achei bonito as formas e tipos de cupinzeiros. Tinha um que parecia um quadro. Árvores e cipós com formas sinistras, exóticas e diferentes apareciam a todo o momento. Devia de ser meio tenebroso remar por ali sozinho e ainda mais se for à noite. Remamos uns 4 km ida e volta e na volta não vimos mais o filhote de tamanduá-mirim na sua toca. Já no final havia algumas abelhas que nos atacaram de repente. Por sorte era daquele tipo que só se agarra nos cabelos e não morde.

Voltamos para o flutuante do Sal na vila Monte das Oliveiras-AM e fazia um calor de lascar. Chamamos as crianças e tomamos um banho maravilhoso ali por perto pendurados nas árvores que estavam dentro da água. As crianças pareciam um macaquinhos e subiam os galhos e saltavam lá de cima. Foi uma verdadeira algazarra. Vi um jacaré-açu bem grande ali por perto e depois analisando bem as fotos ele parecia ser cego de um dos olhos. Disseram que ele não era acostumado a se aproximar dali das pessoas, mas sei lá. Depois fomos almoçar. Deu uma preguiça danada e quando eu estava deitado quase cochilando as crianças vinham me perturbar para conversar ou brincar. A menininha chamada Bre era uma gracinha e tinha 7 anos. Perguntei para a mãe dela se ela a daria para mim e para a minha mulher para criarmos e ela disse que sim. A Bre ficou toda animada e perguntava como era onde eu morava. Falei que tinha outras crianças parentes nossos da idade dela e ela ficou animada. O calor aumentou novamente e fomos tomar outro banho. Por ali também havia uma casqueta danada (canoazinha com motor de rabeta super veloz) daquele estilo lá de Arumã-AM e os seu piloteiro passava “voando” no lago.

De tardinha fui ali na vila tentar levantar o drone, lembrando que ele havia caído dentro do rio ontem. No começo ele pegou, mas a câmera estava com defeito. Depois não ficou bom no meu celular. Até que finalmente ele pegou no celular do Mac, o levantei uns 200 m de altura e pude filmar e fotografar tudo ao redor em um excelente visual. Apareceu uma chuva de lascar no horizonte em cima do lago do Jari, mas depois ela se dissipou e sumiu. À noite chegou o combustível, porém, o PIX não funcionou e o jeito era deixar para amanhã.

Dormi mal outra vez e desta vez foi por causa dos gatos que ficaram por ali pulando e brincando com um outro que veio nadando até o flutuante. A alvorada estava linda, ou seja, sem nenhuma nuvem. Achei engraçado porque o cachorro dali do flutuante do Sal estava ansioso para ir para a terra e já que nenhuma embarcação apareceu para lhe dar uma carona ele acabou indo nadando. Tomamos aquele cafezão ali feito pela Gis e fui tentar pagar o combustível no PIX na internet do irmão do Sal. A internet estava péssima e acabamos indo embora e deixei para pagar depois. O Mac foi em alta velocidade por onde já havíamos passado e mais uma vez o espelhamento das árvores na água do lago Jari era bem bonito. De repente eu vi umas araras-vermelhas em seu ninho numa alta árvore seca. As registrei e continuamos. Vi um gavião-preto e cortamos caminho por um pequeno furo. Apareceu um tipo de palmeira onde todas pareciam estar juntas como se formassem uma moita e algumas flores que me lembraram quaresmeiras. O rio Jari ainda continuava um verdadeiro pantanal com canais e igapós para todos os lados. Continuei vendo aquelas mesmas aves do igarapé Caetano ou Água Branca, porém, em maior quantidade, como patos-selvagens, biguás, garças-mouras, garçinhas-brancas, garças-brancas, Martins-pescadores, graveteiros, entre outros. Achei estranho não encontrar nenhum socó a não ser o socó-boi. Assim como fizemos no igarapé Caetano ou Água Branca paramos para esconder uns dois carotes cheios para aliviar o peso e a voadeira render mais na economia e vi uma jacaretinga e um jacu. Por ali também havia várias espécies de líquenes, um cipó todo retorcido que dava várias voltas no tronco de árvore a esmagando e um tipo de samambaia-preguiça que se assemelha muito a este animal. Encontramos outros barrancos com samambaias comuns por aqui também. Vi outras flores no mesmo estilo das quaresmeiras, porém, de cor branca. Num certo trecho havia muita tiririca em ambas as margens do rio Jari. Um coqueirinho torto lutava pela sobrevivência para não cair no rio. Quase na metade do percurso e depois do igarapé Capivara ou Consuelo vimos uma outra placa do PARNA ainda mais escondida do que a outra no igarapé Caetano ou Água Branca.

Passamos por algumas pontas de praias e às 14h30 chegamos ao início do que seria a trilha feita pelos militares há mais de 30 anos atrás na época da construção da BR-319. Havia dois caras pescando por ali numa canoa e percebemos que eles ficaram assustados conosco. Começaram a tentar esconder algo na canoa e já desconfiamos que fosse alguma caça ou peixes proibidos de se pescar. Nos aproximamos deles e se identificaram como funcionários daquela empresa LCM que está recuperando a BR-319. Perguntaram quem éramos e falei que eu estava fazendo um trabalho fotográfico. Aí nos explicaram onde estava o início/entrada da trilha e fomos lá. Havia um certo acampamento ali no local. Apareceram mais seis outros caras da empresa LCM que também estavam pescando por ali. Os pontos que eu anotei baseado nas fotos de satélite do Google Maps foram precisos. A única diferença foi o início/entrada da trilha que pelas minhas anotações diminuiria uns 600 m em relação a que fomos, mas em compensação creio que teríamos que abrir esta parte no facão. Nos arrumamos, trancamos a voadeira e o motor com cadeados e levamos só o principal. Iniciamos a trilha e havia trechos bem visíveis dos barrancos derrubados para criar a terraplanagem do caminho. Com certeza as máquinas que construíram a BR-319 iam até ali na beira do rio Jari para pegar água. Havia também trechos só com pequenas samambaias, vários cogumelos, líquenes de várias cores, erosões escorregadias, poços e buracos profundos, pinguelas de madeira estragadas, bueiros de ferro daquela época e muitas árvores e galhos caídos. Um desses cogumelos parecia com aqueles docinhos de padarias com um recheio no centro. O suor foi constante e lembrei-me daquelas trilhas que eu havia feito rumo aos pontos extremos Oeste e Norte do Brasil. Encontramos algumas lagoas e poças d’água. Encontramos pegadas recentes de onça por ali também e é nesta hora que é imprescindível estar com um grupo de pelo menos quatro pessoas para intimar este tipo de animal selvagem em relação a eventuais ataques. Infelizmente não vimos nenhuma onça, mas talvez ela tenha nos visto. Encontramos alguns pés daquele tipo de palmeira andante chamada de sete-pernas com seus espinhos em suas raízes aéreas. Dizem que quando uma anta é atacada por uma onça e esta última agarra-se nas costas da anta, se a anta entrar numa floresta de sete-pernas a onça não consegue continuar no dorso da anta de jeito nenhum.

O Mac quis beber a água de um riacho com um pouco de correnteza e eu o alertei que não, pois em breve chegaríamos à Toca da Onça onde a empresa LCM tinha uma base e na pousada do Gaúcho. Depois de 4,9 km e num final de trilha bem dificultoso de se caminhar chegamos à BR-319. Achei engraçado quando um cachorrinho preto que nos acompanhou desde o início da trilha ficou latindo quando resolvemos seguir no rumo da pousada do Gaúcho como se quisesse avisar que ele queria parar ali na Toca da Onça. Putis, que excepcional eu e o meu grupo havíamos conseguido atravessar o PARNA Nascentes do Lago Jari em dois pontos até a BR-319! Que planejamento perfeito e compensatório! Fiquei muito contente com isso e creio que fomos os únicos a realizar isto numa mesma Expedição. Continuamos caminhando e fomos logo conhecer a pousada do Gaúcho. Ao chegarmos lá nos saciamos com a água pura e gelada de duas garrafas de dois litros. Conversamos com o Gaúcho e perguntei sobre o Cat que vive numa boa fazenda ali perto. Ele disse que estava tudo bem com ele. Na época que eu passei por ali atravessando todo o Brasil à força humana de Norte a Sul esta pousada do Gaúcho e nem a Toca da Onça existiam. Achei as coisas por ali muito caras, mas o jeito era aceitar. Tomei um banho maravilhoso ali numa ducha e depois de alojados fomos ali na Toca da Onça para tentar usar a internet. O pessoal muito simpático nos recebeu e encontramos aquela turma que tínhamos conhecido lá perto da ponte do Veloso. Usei a internet, consegui pagar o combustível do irmão do Sal e mandei mensagens para a família. Graças a Deus a minha mãe estava bem e já tinha saído do hospital lá em Brasília-DF. Na hora que serviram o jantar havia uma turma grande de funcionários ali da empresa esperando o toque de um sino que a cozinheira fazia. Lembrei-me de quando eu era criança e a minha mãe também tocava um sino para chamar toda a nossa família para almoçar na fazenda que tínhamos próxima de Goiânia-GO. O pessoal até nos chamou para jantar ali com eles, mas eu não quis incomodar. Agradecemos a hospitalidade e voltamos para a pousada do Gaúcho. Começou a escurecer e à noite apareceram várias estrelas.

Finalmente dormi bem depois de vários dias e como é bom a gente se sentir recuperado e disposto. Acordei às 6 horas, tomamos um cafezão ali na pousada do Gaúcho com farofa de carne, ovo frito, pão, bolo e café com leite. Numa parede dali do restaurante do Gaúcho há vários cartazes de aventureiros que por ali passaram. Acho engraçado alguns escreverem a palavra “Expedição” em suas aventuras, pois para mim Expedição é quando a gente registra tudo de importante com fotos, filmes, diários, análises e depois repassa ao público com algum fim ambiental. Outra coisa que acho engraçado é que vários desses aventureiros que passaram por ali tiram fotos e filmam os limites deste PARNA do Lago Jari e colocam na internet como se o tivessem conhecido bem. Quero ver eles entrarem ali no PARNA que nem fizemos. Fui levantar o drone e não teve jeito dele funcionar. Depois de várias tentativas e quando eu estava quase desistindo o “bicho” deu certo. Subi o “bicho” a mais de 300 m de altura e fiz registros excelentes de toda a área. Deu para ver direitinho o rio Jari e novamente uma antena daquelas da Embratel ali na BR-319. Arrumamos tudo e fomos à Toca da Onça novamente para tentar fazer um PIX para pagar a pousada do Gaúcho. Quando eu estava quase fechando tudo no aplicativo a internet caiu. O Gaúcho foi chegando na sua caminhoneta velha para pegar água do poço e aproveitei para pagar em dinheiro mesmo. Iniciamos a trilha ao rio Jari às 9 horas, vi um líquen no tom amarelo diferente, como se tivesse um verniz por cima dele. Desta vez fizemos a trilha em 1h30 e levamos bastante água para beber. Ao chegarmos a nossa voadeira ainda bem que estava tudo intacto e ao torcer a minha camisa da caminhada de hoje saiu quase 1 litro de suor. Ajeitamos tudo e partimos dali. Desde ontem eu tinha percebido que o rio Jari estava mais baixo pelo menos uns 30 cm, pois as marcas estavam expostas nas plantas na beira de suas margens. Paramos numa ponta de praia e tomamos um maravilhoso banho para retirar todo aquele suor da caminhada. Havia algumas pegadas de animais por ali. Vi uma palmeira que o seu caule se transformou em um cupinzeiro e depois vi algumas araras-canindés. Mais para frente vi uns três gaviões-de-anta, mais patos-selvagens e outras aves novamente. Apareceu chuva de um lado e do outro e a gente foi passando por entre elas escapando por pouco até que nos livramos de vez. Encontramos outra placa do PARNA e mais escondida ainda do que a outra do igarapé Caetano ou Água Branca. Passamos pelo fechado Furo das 20 Curvas e cortamos o caminho de uns 3,5 km. Vimos também um barco de pescadores por ali que seguiam baixando o rio Jari que nem nós. Paramos no ninho das araras-vermelhas numa árvore seca e alta que dá para ver bem com o zoom da máquina de fotos, mas desta vez elas não estavam lá. Chegamos ao Monte das Oliveiras às 16 horas. Pensei em ficar ali e descansar para amanhã já voltarmos conhecendo mais trechos do lago Jari, mas aí o Mac queria voltar logo para Arumã-AM para tentar pegar algum recreio subindo o rio Purus no rumo de Lábrea-AM, pois o Sal disse que talvez passasse um recreio por lá ainda hoje. Achei bem difícil esta possibilidade. Porém, para ajudar o Mac, resolvi aceitar porque senão aquele recreio que viemos de Lábrea-AM, o Manuel Fonseca, só estaria voltando para lá daqui a uns cinco dias. Acertei tudo, nos despedimos de todo mundo por ali e seguimos adiante rumo à casa do Ald para deixa-lo lá. Pegamos um certo banzeiro e deixamos o nosso amigo ali. Seguimos pegando outro lindo ocaso ali no lago Jari e depois entramos no canal do rio Jari onde já estava meio escuro. Chegamos à Arumã-AM às 18h30 e o Mar disse que o recreio havia passado ontem de tardinha. Putis, nos cansamos à toa e daria para conhecer outros trechos do lago Jari. Hoje foi o meu recorde percorrido de voadeira, ou seja, 291 km e mais 5 km de caminhada na selva. Lembrando que saímos da trilha às 11 horas.

 

SUGESTÕES:

Todo o LAGO Jari deveria estar dentro do PARNA para uma proteção mais abrangente e os ribeirinhos nativos serviriam de apoio como são atualmente, porém com boas estruturas para atender os turistas e os estudiosos, devendo preservar seriamente o ambiente natural ao redor.

Além disso, os moradores ribeirinhos dali não aumentariam mais a sua população e eles ainda poderiam ter um certo ganho como guias e com pousadas. Assim como acontece em outros diversos PARNAs do Brasil.

 

OBSERVAÇÃO:

As informações aqui contidas são meras experiências passadas por mim neste PARNA e em suas redondezas. Portanto, não me responsabilizo pelos riscos e problemas que possam acontecer e nem em garantir que tudo dará certo para propensos visitantes a este PARNA e as suas redondezas. Cabe a cada propenso visitante se responsabilizar pelas suas decisões e atitudes, procurando sempre um comportamento lícito e compatível com o local, com a fauna, com a flora e com as pessoas ali residentes e nativas. Além de que deverá seguir as regras do ICMBio, as regras de segurança e o uso adequado de seus equipamentos durante toda a visitação deste PARNA e de suas redondezas.