PARQUE NACIONAL SERRA DA CUTIA

1ª PARTE

2ª PARTE

3ª PARTE

4ª PARTE

5ª PARTE

6ª PARTE

 

INFORMAÇÕES IMPORTANTES:

 

QUANDO IR:

Prefira ir quando as chuvas estiverem parando e os rios e igarapés começando a secar, pois desta forma ainda dará para navegar e ainda encontrará água para beber. Ou seja, entre maio e junho.

 

O QUE LEVAR:

Leve a autorização concedida pelo ICMBio e avise o chefe do PARNA pelo menos 15 dias antes de sua ida. Além disso, leve uma boa barraca, almofada ou colchonete inflável para dormir, cobertor fino (na Amazônia há a possibilidade de fazer noites frias), capa contra chuva, uma boa bota de cano longo (as de borracha espessa protegem tanto de picadas de cobras quanto de se molhar ao atravessar charcos e pântanos), meião ou meias especiais, esparadrapo e algodão, copo e talheres dobráveis, repelente, protetor solar, boné, óculos de sol, roupas de uso pessoal (prefira as de nylon ou de material leve), um bom GPS com as coordenadas já marcadas, power bank (carregador para aparelhos eletrônicos), lanterna de testa, aparelhos eletrônicos pessoais, barras de cereal, bananas desidratadas, uma ou outra bebida energética, hipoclorito de sódio para por na água de rios suspeitos, produtos de higiene pessoal, etc.

A água pode ser levada em garrafões de 20 litros no caso de ir de voadeira.

Leve um tênis daqueles a prova d’água para ficar na voadeira e ao descer nas ilhas de areia.

Leve um Específico Pessoa para amenizar eventuais picadas de animais peçonhentos para as primeiras horas.

 

COMO CHEGAR:

De avião comercial para Porto Velho-RO e de lá alugando um carro ou indo de ônibus rumo às Cidades de Apoio ou às vilas.

Será preciso ir de voadeira (barco de alumínio rápido com motor de popa) por cerca de 190 km de Guajará-Mirim-RO à vila Surpresa e dali por mais uns 30 km por uma estradinha de terra até a voadeira do ICMBio para percorrer mais 1 km até a base do rio Sotério.

Para a área sul do PARNA Serra da Cutia pode-se ir de voadeira pelo rio Guaporé por cerca de 58 km saindo de Costa Marques-RO, mais uns 100 km pelo rio Cautário até a vila Laranjal, mais uns 42 km pelo rio Cautário até a boca do igarapé São João ou Branco e mais uns 32 km até a boca do igarapé da Cruz. O PARNA estará do lado esquerdo e a Terra Indígena Uru Eu Wau Wau à direita. Ou pode-se sair de Costa Marques-RO de carro pela BR-429 por uns 50 km até um entroncamento e percorrer mais uns 30 km numa estradinha de terra cheia de curvas até a vila Laranjal para dali prosseguir pelo rio Cautário e pelo igarapé São João ou Branco.

           

CIDADES DE APOIO:

As cidades de apoio para conhecer este PARNA são Guajará Mirim-RO e Costa Marques-RO, onde se encontram toda a estrutura necessária como hotéis, bancos, hospitais, etc. Apesar de que tal PARNA se encontra totalmente dentro do município de Guajará Mirim-RO, prefira ficar em Costa Marques-RO porque a mesma situa-se mais perto das áreas com maiores possibilidades de visitação, ou seja, na parte sul.

Na parte sul também encontra-se a vila Laranjal, acessada pela BR-429, qual está mais próxima do deste PARNA e com pouca estrutura.

A parte norte e leste possuem muitas zonas intangíveis ou quase intangíveis.

Na parte oeste existe a vila Surpresa (Guajará-Mirim-RO), onde é também um bom local de apoio, porém com menos estrutura.

 

ATRAÇÕES:

No PARNA há uma boa trilha de uns 6 km na área oeste (base do rio Sotério), os Três Peitos (Peitinho, Peito e Peitão) que são inselbergs, lajedos, serras, igarapés com águas cristalinas como o da Cruz e o Verde, diversas praias que começam a aparecer no início da estação seca, passeios de voadeira, etc.

Nos arredores há visitação aos seringais, avistamento de botos nos rios Mamoré e Guaporé, comidas típicas nas vilas e cidades, visitação à sede da FUNAI no rio Cautário com autorização específica, inselberg da Verruga no Território Indígena Uru Eu Wau Wau com a possível autorização e acompanhamento da FUNAI, forte Príncipe da Beira no município de Costa Marques-RO e na beira do rio Guaporé, Labirinto próximo a este forte, Hotel de Selva Pakaás Palafitas Lodge no município de Guajará Mirim-RO e em frente do encontro do rio Mamoré com o rio Pacaás Novos, etc.

 

DICAS:

Utilize repelentes e protetores solar, pois nas áreas com Cerrado o sol é muito forte.

Tenha autorização do ICMBio para entrar no PARNA.

Nunca ande sozinho na mata. 

 

RISCOS:

Raios, ventanias, chuvas fortes, inundações, desmoronamentos, etc.

Animais peçonhentos, onças, arraias, jacarés-açus, entre outros animais selvagens.

Acidentes de forma geral, se perder,  afogamentos, cortes, picadas, mordidas, insolações, desnutrições, estresses, insônias, intoxicações alimentares, adquirir vermes, eventuais ataques indígenas, doenças tropicais, etc.

A estradinha de terra que liga a BR-429 à vila Laranjal devido às suas diversas curvas fechadas, mata fechada, veículos em sentido contrário e eventuais animais selvagens que podem atravessá-la.

Búfalos selvagens que podem aparecer nas áreas de pântanos e de charcos principalmente próximas do rio Guaporé.

 

DIÁRIOS:

Estive por ali há muitos anos atrás na minha primeira viagem à Amazônia. Eu estava encantado com toda a beleza da fauna e flora daquele bioma que eu sempre sonhei em conhecer.

Naquela época o esse PARNA era um dos mais novos e não possuía nenhuma estrutura e nenhum apoio. Ninguém sabia corretamente onde ele começava e terminava.

Ainda assim consegui contratar um piloteiro em Costa Marques-RO e entramos pela foz do rio Cautário e navegamos nele até a vila Laranjal-RO. Vi muitos animais selvagens e presenciei os costumes dos ribeirinhos e dos seringueiros.

Passei também no forte Príncipe da Beira e fiquei impressionado de como aquele tesouro histórico estava esquecido e abandonado.

Muitos anos depois, após uma viagem rápida com um carro que eu aluguei para conhecer outras regiões de RO e depois de uma viagem cansativa com um ônibus cheio de gente por causa do Dia das Mães que peguei de Porto Velho-RO a Guajará Mirim-RO, finalmente eu havia chegando ao meu destino de onde partiria rumo ao PARNA Serra da Cutia para conhecê-lo melhor desta vez.

O meu amigo piloteiro chegou cedo ao hotel onde dormir na noite passada para arrumarmos tudo para a viagem de voadeira. Passamos no ICMBio e me apresentei ao chefe temporário do PARNA. Ele também iria para a vila Surpresa-RO a uns 190 km dali de Guajará Mirim-RO navegando numa voadeira com um motor 90 hp mais rápido e nós iríamos numa outra voadeira com um motor 40 hp por ser mais econômico. Fiquei dirigindo a caminhoneta emprestada do ICMBio para comprar o combustível, óleo dois tempos e a comida e bebida de nossa viagem. Passamos por alguns pontos turísticos da cidade e tudo estava bem arrumado e limpo. A catedral é bem bonita, há uma boa praça central, uma locomotiva da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) e um museu sobre ela. O nome deveria de ser Mamoré-Madeira, pois o primeiro rio deságua no segundo, porém, a estrada de ferro iniciou de Porto Velho-RO para cá e por isso o nome ficou ao contrário. Lembrando que a construção desta primeira ferrovia na região norte do Brasil foi por causa de um acordo entre Brasil e Bolívia pela compra do estado do Acre pelo Brasil. Depois levamos a nossa voadeira para o píer na beira do rio Mamoré para dali zarparmos rumo à vila Surpresa-RO. O rio estava super cheio e às 11h saímos dali de Guajará Mirim-RO com três homens na voadeira, ou seja, eu, o meu amigo piloteiro e o filho dele de 15 anos. Chegamos ao encontro do barrento rio Mamoré com o escuro rio Pakaás Novos, onde há um lindo Hotel de Selva com a sua piscina suspensa e seus chalés de palha que agora são de telha de onde avistei vários botos tucuxis e cor-de-rosa ali no encontro daqueles rios. Estive ali há uns 17 anos atrás e nunca me esqueço da emoção de estar conhecendo a Amazônia pela primeira vez. Ali também foi a primeira vez que comi o delicioso Pirarucu, o qual é considerado o Bacalhau brasileiro e até mais gostoso. Lembro-me que havia uma passarela de palafita de uns 2 km de extensão, de onde se avistava vários animais no solo e nas árvores. Entramos no rio Pakaás Novos e navegamos uns 32 km ida/volta até próximo de uma aldeia indígena. Voltamos ao encontro com o rio Mamoré e seguimos viagem. Usei um casaco tampando a minha garganta porque o vento que a voadeira faz por muitas horas é bem forte e frio. Quando a voadeira para é um calor bravo. Passamos por vários barcos bolivianos transportando gás, petróleo e gado, lembrando que na outra margem é a Bolívia. Vimos grandes samaúmas e poucos animais devido à cheia excessiva do rio, porém, de tardinha apareceram algumas araras, biguás e garças. Chegamos à vila Surpresa-RO, a qual está bem no encontro do barrento rio Mamoré que vem da Bolívia com o escuro rio Guaporé que divide o Brasil da Bolívia e nasce lá pelas bandas de Vila Bela da Santíssima Trindade-MT. Já era 17h30 e havia um lindo ocaso. Não há nenhum porto por ali, porém, havia muitos barcos em construção ou em reforma. Outra caminhoneta do ICMBio já estava ali nos esperando para retirar a nossa voadeira e fomos até a base deste órgão no pé de um morrinho. Os carapanãs ou muriçocas nos atacaram aos montes. Jantamos ali, conversei bastante com o chefe do Parque e depois fomos à casa do meu amigo piloteiro para dormir, onde não havia nenhum carapanã e um quarto com ar condicionado só para mim.

Já no outro dia, saímos da vila Surpresa-RO por volta das 7h30 na caminhoneta do ICMBio e pegamos uma estradinha de terra por entre alguns sítios e fazendas. Vi um bando de macacos zogue-zogue e tirei boas fotos. Havia um trecho com bastante desmatamento que está preocupando muito o órgão por causa da proximidade com o PARNA. Passamos por um igarapé de água cristalina e depois por uma ponte de madeira sobre um pântano que o meu amigo piloteiro disse que foram eles que a construíram e chegamos à uma fazenda, onde se deixa a caminhoneta para pegar uma rabeta. Vi um lindo gavião e tirei algumas fotos. Calcei a minha bota longa de borracha porque há uma estradinha cheia de lama até a rabeta e depois navegamos por mais de 1 km dentro de igapós (quando o rio alaga a floresta ao seu redor) até a base do ICMBio no rio Sotério. Há uma linda e boa casa construída pelo meu amigo piloteiro e pelo antigo chefe do PARNA ali com um bom ancoradouro ou pier e uma passarela de uns 70 m até a casa. Oba, chegamos ao PARNA Serra da Cutia finalmente! Esta base chama-se D. Ezautina em homenagem a uma senhora de 90 anos que vive ali por perto e que já se perdeu duas vezes na mata e conseguiu sobreviver. Fiquei num quarto sozinho e havia uma aranhona caranguejeira bem grande logo no portal para me recepcionar. Deixei-a ali tranquila, pois a mesma havia recém trocado de pele em sua teia. O meu amigo piloteiro fez um delicioso frango cozido e eu e o seu filho fomos tomar banho ali no ancoradouro, pois o calor estava bravo. Por ali há um jacaré-açu meio domesticado chamado Pitoco, mas nunca se sabe, pois há poucos anos atrás havia um assim meio domesticado também numa reserva ali em Rondônia que atacou e comeu uma das pernas de uma bióloga. Porém, disseram que o Pitoco só aparecia mesmo no verão ou na seca que estava começando agora. Descansamos um pouco depois do almoço e às 15h fomos caminhar numa trilha nos fundos da casa. Devido ao calor encontramos somente um Jacu. Fotografei vários cogumelos e líquenes e algumas árvores como a Catuaba e um gigantesco Angelim, o qual é o rei da floresta amazônica em altura, superando até mesmo a samaúma e a Castanheira. Caminhamos cerca de 4 km e voltamos para a base para navegarmos pelo rio Sotério, margeando o PARNA. Subimos o rio até o seu limite oeste com o PARNA a uns 2 km da base e depois voltamos descendo o rio por mais uns 16 km. O rio Sotério estava tão cheio que foi difícil saber onde era o seu canal principal e os igapós eram tão grandes que foi preciso passar por galhos caídos o tempo todo. Vi um Sapinho que deve de ser o menor do mundo, ou seja, menor que a minha unha do dedo da mão e depois um Louva-a-Deus anão e aquela linda Borboleta com suas asas do lado interno azuladas e do lado externo imitando os olhos de uma Coruja. Voltamos à noite para a base.

Após acordar às 5h30 e de dormir maravilhosamente bem, pois ali por perto não há casa nenhuma e ninguém passa por ali, fui filmar com o drone a base e parte das redondezas do PARNA. Depois fomos embora rumo à caminhoneta no mesmo esquema da vinda. Percorremos novamente os cerca de 30 km que separam a base do rio Sotério com a vila Surpresa e vi pela terceira vez aquela cobra chamada Lombo Seco. Desta vez ela estava parada parecendo morta e fui fotografando-a na medida que íamos nos aproximando dela. Sua cor realmente chama a atenção, ela estava tranquila e foi saindo devagar da estrada. Interessante que de todas as partes da Amazônia por onde já percorri só encontrei este tipo de cobra aqui em Rondônia e nesta região. Chegamos à vila Surpresa-RO, pegamos a nossa voadeira na sede do ICMBio e zarpamos às 12h. O encontro dos rios Mamoré e Guaporé é bem bonito, onde percebe-se bem as manchas das águas turvas com as escuras. Havia muitos aguapés nas margens com suas flores roxas claras. É preciso sempre ter muito cuidado ao parar nestes aguapés, pois muitos animais como jacarés-açus e sucuris vivem por ali. Observávamos as nuvens de chuva no horizonte e íamos escapando delas pelo rio Guaporé. Depois de escaparmos de seis delas a sétima nos pegou em cheio e mesmo com a capota de lona no teto da voadeira molhou tudo por causa da ventania. Cheguei a ficar de costas em relação à frente da voadeira para não me molhar tanto. Depois tive até que trocar as roupas por causa do banho de chuva. Ainda bem que havíamos ensacado tudo antes para não molhar. O motor 40 hp chegou a fazer 2,5 km por litro e numa velocidade de 40 km/h. Chegamos ao forte Príncipe da Beira, onde há uma vila e um quartel do Exército. Dois soldados do Exército foram nos ver onde atracamos e pediram para eu não fotografar e nem filmar a área deles. Estive ali há 17 anos atrás e o encontrei do mesmo jeito, ou seja, abandonado. Um absurdo porque esta relíquia da humanidade de quase 250 anos de idade está quase desmoronando e ninguém faz nada para recuperá-lo. Dizem que a sua restauração ficaria em torno de R$ 40.000.000,00 e que a UNESCO pretende declará-lo como Patrimônio da Humanidade. Quando será? Suas paredes possuem cerca de 10 m de altura e elas são feitas de blocos de pedra com cerca de 1m/0,40cm/0,40cm que foram retirados e cortados de forma perfeita e no esquadro dali mesmo. Ele foi construído por 200 brancos, 3.000 indígenas e 2.000 negros, sendo em regime de escravidão estes dois últimos. As ferramentas, canhões e objetos de ferro foram trazidos via fluvial pelo rio Guaporé desde Vila Bela da Santíssima Trindade-MT. Não sei como os brancos conseguiam dominar os indígenas naquela época porque mesmo tendo armas e munições 200 contra 3.000 não iriam dar conta, a não ser se aqueles indígenas não fossem guerreiros. Talvez os indígenas ajudavam mais por curiosidade e impressionados pelas modernidades dos brancos daquela época. Há vários ninhos de marimbondos e de abelhas no interior deste forte. O portal de entrada, alguns canhões e as sentinelas das suas quatro pontas ainda estão perfeitos. Dizem que ainda há ouro enterrado ali no seu pátio e sua área total é de quase 1 km2, sendo o maior forte das Américas e o segundo do mundo. Já encontraram armas, ferramentas, objetos e moedas por ali e querem trazer este material de volta depois que construírem um museu nas imediações. Foi Rondon que encontrou este forte e ele nunca foi utilizado em guerra porque parece que o Tratado de Tordesilhas foi realizado antes de sua inauguração. Tirei várias fotos e filmei, compramos alguns ovos e pães ali na vila e fomos embora às 17h. Voltamos ao rio Guaporé descendo-o e entramos na primeira boca ou foz do rio Cautário. Ali é outro pântano parecendo com o Pantanal mato-grossense com muitos bichos, como jacarés-açus, jacaretingas, ciganas, garças, biguás, inhumas (chamadas ali de alencor), gaviões, etc. O ocaso deu um tom especial naquela hora mágica. Chegamos à casa de uns conhecidos do meu amigo piloteiro e paramos ali. No local há internet e aproveitei para mandar notícias para a minha mulher. O chato é que havia tanto carapanã que era uma tortura sair da varanda protegida com tela para poder ter o alcance da internet. Hoje percorremos cerca de 190 km de voadeira.

Dormi muito bem graças ao casal conhecido do meu amigo piloteiro que é super simpático. Eles haviam me emprestado um mosquiteiro para dormir melhor. Tomamos um café bom e vi que o dia estava bem frio, todo nublado e com muita ventania. Outra friagem estava de volta e tomara que vá logo embora para eu poder fotografar e filmar melhor. Seguimos subindo o rio Cautário e ainda estávamos em sua área pantanosa que só depois de muito tempo virou um canal. Mesmo com o frio apareceram alguns animais selvagens. Mais para frente iniciou uma garoa chata que começou a molhar as nossas roupas. Ainda bem que ela foi embora depois. Paramos em dois lugares para o meu amigo piloteiro avisar que estávamos entrando na RESEX do rio Cautário e no outro para pedir informações sobre a Trilha do Cajueiro, a qual vai até a Serra da Cutia, mas que porém, apesar de ser mais perto não está dentro do PARNA. O meu plano era o de ir lá por cima mesmo, subindo o igarapé São João do Branco (SJB), caminhando no Cerrado e chegando às serras, passando então por certos morrinhos que os apelidei de “peitinho”, “peito” e “peitão” (Peitos), os quais são o logotipo do PARNA Serra da Cutia, para de lá prosseguirmos até a Serra da Cutia, onde toda esta área está dentro do PARNA. Eu ainda estava decidindo por qual lugar ir até a Serra da Cutia, mas por enquanto o mais certo seria o da segunda opção. Chegamos à base do ICMBio da RESEX do rio Cautário em frente à vila Laranjal-RO e onde há uma longa passarela em forma de palafita de uns 80 m de comprimento até uma casa com boa estrutura, onde estavam os vigilantes. A casa possui vários quartos, banheiro, área de serviço, varanda telada, uma sala de reunião, cozinha, TV, ar condicionado, água tratada, luz elétrica e uma ótima internet. Conforto no mato é muito bom. Eu estava muito cansado. Talvez por causa de toda esta viagem sem parar. Já havia feito de avião Brasília-PV, de carro uns 1.500 km (teve todo aquele estresse com o carro que quebrou), de ônibus uns 350 km, de voadeira quase uns 550 km e mais todo o sol, vento e friagem que já havia pêgo. Por isso, resolvi descansar amanhã para recuperar as forças. Lá para às 16h30 fui ali à vila Laranjal-RO com o Meu amigo piloteiro e o seu filho conversar um pouco com os seus parentes que ali residem e ao caminharmos até uma casa para encomendar pão quase pisei numa jararaca. Ela estava imóvel, reta e parecia um graveto. Quando fui levar o meu pé para pisar na frente o meu cérebro levou um milionésimo de segundo para perceber que era uma cobra e por cerca de um palmo quase pisei nela. Putis, o pior é que eu estava usando um tênis bem confortável e inseguro para esta situação! Por sorte ela não estava do lado do meu amigo piloteiro que estava de chinelo e nem a tinha visto. Depois que escapamos dela voltei para fotografá-la no celular e a mesma armou o bote. Aí sim ficou perigoso e fomos embora. Apesar de eu ainda estar meio bobo do cansaço, minha N.S. de Fátima me deu esperteza e atenção para conseguir perceber a tempo aquela jararaca. De tardinha a bicharada começou a cantar, pois o sol apareceu novamente.

Hoje é dia de N. S. de Fátima, minha madrinha. Pedi a ela que continuasse me protegendo, me dando saúde, disposição, controle, atenção e esperteza para escapar de qualquer perigo ou problema que pudesse aparecer. Esta proteção já havia começado desde ontem com aquela jararaca que quase a pisei. E que a humanidade torne-se mais solidária, pacífica e amorosa. Ainda bem que ontem fui dormi cedo porque o meu amigo piloteiro chato tem mania de acordar todo mundo às 5h da manhã fazendo barulho na casa com café e com os pratos. Acordei às 4h da manhã e voltei a dormir até às 7h, sendo que ontem fui dormir às 21h30. Tomei um bom café e às 8h saímos rumo a Costa Marques-RO no carro do sobrinho do meu amigo piloteiro para conhecermos um tal de Labirinto nas imediações do forte Príncipe da Beira. Há uma estradinha de terra de mais de 30 km, quase apagada ao ser vista pelo Google Maps que cruza a floresta na área da RESEX do rio Cautário, indo da vila Laranjal-RO à BR-429. Esta estrada é estreita e bem perigosa, onde já aconteceu vários acidentes em suas diversas curvas, assim como atropelamentos de animais selvagens. Depois chegamos à Costa Marques-RO e lembrei-me de quando estive ali há 17 anos atrás. A cidade não mudou muito e na área que margeia o rio Guaporé ainda existem as palafitas bolivianas do outro lado. Desta vez, vi que do lado brasileiro também havia algumas palafitas. Não tanto quanto do lado boliviano. Também havia vários bolivianos do lado de cá conversando alto em espanhol como se fossem nativos da região do lado dos brasileiros. Seguimos rumo ao forte Príncipe da Beira e desta vez filmei-o com o drone. Procuramos alguém para nos levar no tal Labirinto e apareceu um senhor meio mestiço com índio para nos levar. Há uma trilha meio suja logo no início e depois começam a aparecer algumas paredes de pedra de até 3 m de altura. As pedras não são cortadas e foram colocadas uma por cima da outra de forma bem encaixada. O local está muito sujo de mato e de folhas e é até perigoso para servir de tocas para cobras e para outros animais peçonhentos. O nosso guia disse que os órgãos do meio ambiente não deixam limpar o local e com isso as árvores vão destruindo ou deformando as paredes e também podem cair no local. Achei outro absurdo, ou seja, uma riqueza desta e está ali abandonada. Eu queria filmar com o drone, mas não tinha nenhuma condição. Pensei que fosse um labirinto mesmo naquele estilo retangular ou quadrado com suas paredes internas que nos fazem se perder por dentro. Na verdade o local parece ser ruínas de uma antiga vila. Não se têm certeza de quem as construiu, e pode ser que elas foram feitas até mesmo pelos incas. O guia disse que a área é enorme e que foram encontradas grutas ali por perto também, além de que quando o rio Guaporé está bem seco aparecem gravuras rupestres em baixo relevo em algumas de suas pedras no estilo inca. Havia tanto carapanã no local que tínhamos que espantá-los o tempo todo com as mãos, o que não adiantava muito. Mais para frente há uma parede baixa que se parece com um portal ou talvez com uma janela ou com uma porta de alguma casa com pedras no estilo do forte Príncipe da Beira, e outras soltas e sem formato padronizado como as dali mesmo do Labirinto. Nosso guia disse que já encontrou por ali duas facas antigas. É um lugar muito interessante mesmo e pena que está abandonado. Voltamos para a vila Laranjal-RO e passamos ali por perto na casa de dois carregadores para acertar tudo para amanhã.

Amanheceu às 6h e vi que o dia estava nublado e com cerração. Depois ficou alternando entre sol e nublado, mas ainda bem que não choveu. Após toda a enrolação para se comprar mais comida, pois eu havia percebido que não daria, e da confusão para encontrar os carregadores que na verdade já estavam ali na casa dos parentes do meu amigo piloteiro, acabamos saindo às 8h30. Navegamos subindo o rio Cautário e lá para às 11h chegamos à boca do igarapé SJB, onde começamos a subí-lo. Logo na entrada dele havia muitos galhos e mata fechada de árvores chamadas ingaranas e deu um certo trabalho para abrirmos o caminho. Depois o rio ficou com o seu canal mais limpo e prosseguimos. De vez em quando apareciam mais ingaranas e algumas árvores atravessadas no rio bloqueando a passagem. Aí foi preciso ligar a motosserra e cortá-las ou na maioria das vezes utilizar os facões. Apareciam de vez em quando algumas corredeiras também e apenas na primeira delas foi preciso descer da voadeira e puxá-la com cordas pelo canto do rio para não bater forte nas pedras. Paramos após uns 500 m da boca do igarapé Verde para almoçarmos e o local é muito bonito com águas cristalinas e muitas pedras. Vimos muitas aves como Martins-pescadores, biguás, corós-corós, socós-bois e pavãozinhos-do-Pará com suas lindas asas desenhadas por trás. Vimos também um filhote de ariranha morto que boiava no igarapé. Mais para frente e já quase no final onde iríamos parar encontramos mais ingaranas e foi bem difícil passar por ali também. Vimos um bando de bugios nos barrancos do igarapé bebendo água, dois grandes jacarés-açus e um jacaretinga. Numa árvore seca e alta havia bandos de araras Canindés e da vermelha. Em alguns trechos um dos carregadores que contratei, que também é piloteiro, vinha no embalo e passava por cima dos troncos e dos galhos. Paramos numa praia pequena depois do igarapé da Cruz e ao lado de onde havia as tais “colocações” (casas onde moravam os funcionários dos patrões que ali viviam das seringueiras, da criação de gado e de garimpo). Inclusive uma dessas colocações foi da família do meu amigo piloteiro, a qual fomos vê-la, e que estava toda em ruínas e engolida pela selva. O meu amigo piloteiro se entusiasmou, pois viveu ali toda a sua infância e adolescência e agora mostrava emocionado todo aquele lugar para o seu filho. O desnível de onde paramos para acampar até a boca do igarapé SJB deu 15 m de queda. Este igarapé divide o PARNA Serra da Cutia da Terra Indígena (TI) Uru Eu Wau Wau e o mesmo não pertence a nenhuma dessas áreas. Parece que a sua área ainda está em processo de indenização. Percorremos 76 km de voadeira e paramos às 17h30. À noite, no meio do silêncio absoluto, a gente só ouvia os sapos e as pererecas e de vez em quando alguns pulos dos peixes no igarapé SJB.

Ontem à noite quase desisti de ir ao PARNA aqui por cima porque a comida estava escassa em relação à proteína de carne e agora só tínhamos arroz, feijão, algumas bolachas e um pouco de leite e café. Acontece que a carne de sol e a linguiça que compramos em Guajará Mirim-RO foi se estragando e o meu amigo piloteiro nem me avisou direito. Além disso, era para pegarmos alguns peixes para levarmos e não conseguimos. Acabei decidindo em continuar assim mesmo e ir até onde dava já que eu estava ali ao lado do PARNA. Na Serra da Cutia não daria para ir mesmo, por causa da escassez da comida e do tempo que era pouco. Pelo menos eu queria caminhar naquele Cerrado do PARNA, nas suas matas ciliares dos igarapés e tentar chegar aos três morrinhos que simbolizam o PARNA Serra da Cutia, os quais os chamei de Peitinho, Peito e Peitão. Desarmamos o acampamento, descemos por mais de 2 km o igarapé SJB e entramos no igarapé da Cruz por uns 200 m. Eu já havia tirado vários pontos com suas coordenadas anteriormente pelo Google Maps e sabia exatamente onde estávamos o que teria pela frente. Deixamos a voadeira ali com o seu motor de 15 hp e vários outros objetos a mercê e separamos o principal e o mais necessário para prosseguirmos dali caminhando rumo aos três “Peitos”. Eu até havia falado anteriormente para o meu amigo piloteiro que seria importante ele trazer uma corrente grossa e um cadeado para trancar a voadeira e o seu motor ali em alguma árvore, mas o mesmo disse que não iria precisar, pois ali não ia ninguém. Será? De qualquer forma fiquei meio preocupado com isso, pois na volta iríamos estar super cansados, com menos comida ainda e imagina chegar e não encontrar nosso principal veículo. Partimos dali às 9h30 depois de tanta enrolação e com todos carregando cargas pesadas em suas costas e depois de uns 600 m caminhando na mata ciliar saímos no lindo Cerrado. O único problema do Cerrado é que o calor é insuportável e a gente precisa se hidratar constantemente. O lugar ali é lindo também, ou seja, com florzinhas coloridas, sempre-vivas ou chuveirinhos e aqueles cupinzeiros de terra preta que se parecem castelinhos feitos na areia das praias. Mandei um dos carregadores ir na minha frente abrindo caminho a facão e eu logo atrás orientando-o no GPS com o resto do pessoal logo atrás. Íamos cortando caminho por entre algumas partes com a vegetação mais densa sempre a procura de áreas mais limpas e com o mato mais ralo. Estávamos sempre com a nascente do igarapé da Cruz do nosso lado esquerdo e mais para frente a iríamos atravessar rumo à esquerda e no sentido dos “Peitos” que fazem parte da Serra da Cutia. Passamos por lindos lajedos de cor preta na mesma altura da vegetação e com algumas flores e poças d’ água. Vimos alguns carreiros e pegadas de anta e de jaguatirica, mas bicho mesmo nenhum. Paramos para almoçar às 12h e depois entramos numa vereda cheia de buritis até a nascente do igarapé da Cruz. Ali dentro havia também uma área com dezenas de bananas-bravas. Havia uma água bonita e limpinha ali e nos reabastecemos à vontade. Pela primeira vez na Amazônia vi o fruto da banana-brava, o qual parece uma romã. Onde há buriti e banana-brava há água! Ali naquela mata conseguimos nos refrescar mais do sol intenso do Cerrado e depois o tempo ficou nublado melhorando a caminhada neste bioma. Eu havia mudado a minha camisa de manga longa do Exército para uma mais refrescante e com isso começaram a aparecer os arranhões nos braços. Bebíamos água o tempo todo para não desidratarmos. Mais para frente atravessamos a nascente do igarapé da Cruz com sua larga mata ciliar e paramos às 16h30 para montar acampamento. Caminhamos cerca de 13 km hoje, paramos perto de outro igarapé com água boa, onde vimos um casal de araras Canindé gritando perto de nós. Tomara que façam silêncio mais tarde.

Dormi das 18h30 às 6h de hoje e as araras não incomodaram. Todos nós estávamos cansados por causa do solaço de ontem e do peso que carregamos em nossas mochilas e jamanxins (mochila artesanal improvisada). Comemos um fiambre com bolachas no café e saímos dali às 7h rumo aos “Peitos” da Serra da Cutia. O pessoal preferiu ir pela mata do que pelo Cerrado, pois o dia estava bem ensolarado. Encontramos uma picada (trilha) abandonada, mas bem visível ainda e resolvemos ir por ela já que pelo GPS estava indo no mesmo rumo dos “Peitos”. Beleza, agora estava na sombra e com uma trilha semiaberta. Tivemos que ir o tempo todo com muita atenção, pois havia muitos troncos, pedras, muita folhagem e buracos para todos os lados nesta mata. Algumas vezes a gente tropeçava e pisava em falso, mas isso é normal nas caminhadas em mata. O pior mesmo é quando alguém toma uma “rasteira da selva” que é quando a gente pisa num galho ou toco com um pé e ele trava uma de suas extremidades no calcanhar do outro pé, causando um tropeço ou tombo da pessoa. Felizmente ninguém sofreu uma dessas. Atravessamos vários igarapés e um deles era mais largo e profundo, talvez uma das nascentes do igarapé Verde. Neste último então tivemos que caminhar por dentro dele durante uns 50 m e logo reencontramos a picada antiga. Depois voltamos para o Cerrado e numa certa curva que fizemos encontramos o mato do chão todo amassado e uma carcaça de tatu recém comida. Certamente uma onça estava por ali, nos ouviu aproximando e saiu fora. Fomos nos aproximando dos “Peitos” e parávamos somente para beber água. Ainda bem que água não faltou por ali, e creio que fiz bem ir nesta época do ano, ou seja, logo no final do inverno, pois os rios e igarapés maiores ainda estavam bons para navegar, as chuvas haviam parado e os igarapés menores estavam começando a secar. Paramos rapidamente para almoçar, que na verdade foi um lanche, pois tínhamos que regrar a comida devido a escassez. Passamos pelo Peitinho, pelo Peito e a picada acabou. Chegamos ao Peitão e começamos a subi-lo. Creio que paramos a uns 100 m de altura nele. Já era 15h e ficamos maravilhados com a beleza do local e a vista magnífica das matas e do Cerrado. Caramba, deu para ver direitinho os caminhos que fizemos entre esses biomas do mesmo jeito que eu havia visto e planejado no Google Maps! O Peito estava bem ao nosso lado direito e o seu paredão gigantesco se destacava. Já o Peitão, onde estávamos é tão alto que ao medir depois no drone ainda deu mais uns 200 m de altura até o seu topo. Consegui tirar boas fotos dos três e ainda filmei e fotografei a Serra da Cutia aos fundos numa distância de uns 13 km em linha reta. Eu queria ter aproximado mais o drone da Serra da Cutia e subi-lo mais ainda, mas começou a dar muitos sinais de advertência no seu controle e caso ele caísse por ali seria muito difícil depois resgata-lo. Na nossa frente havia uma parte grande da serra e sabíamos que a nossa voadeira estava atrás dela no igarapé da Cruz. O dia estava lindo e isto ajudou bastante. Ficamos ali um bom tempo admirando a natureza e os seus sons também. Eu me senti como um homem pré-histórico observando o seu território. Os pássaros cantavam freneticamente naquele lindo pôr-do-sol com o seu momento mágico. Putis, tinha valido à pena todo o sacrifício de passar fome, as dezenas de arranhões, o calor, os tropeços, etc! Agora ainda tinha a volta. Descemos o perigoso trecho que havíamos subido com muita atenção, pois descer um morro é sempre mais difícil do que subi-lo. Logo chegamos ao nível da mata e ainda conseguimos voltar quase 1 km até o nosso terceiro acampamento. Montamos nosso acampamento numa área cheia de bananas-bravas e muita água boa. Percorremos cerca de 12 km hoje. Consegui comer melhor à noite e tinha arroz e almôndegas enlatadas. Conquista!

Dormi meio mal, porém, deu para descansar e o dia hoje seria uma dureza lascada. Começamos a caminhar às 7h30 e andamos super rápidos. Até às 11h30 a gente já tinha feito o que fizemos ontem. Às 12h o calor estava tão forte que sonhamos em encontrar um oásis para nos refrescar. Entramos na mata e lá estava ele. Caramba, que lugar magnífico! Uma verdadeira dádiva de Deus, ou seja, um igarapé com água cristalina, com cerca de uns 50 cm de profundidade e com o seu fundo todo de areia branca e fina. Putis, me deliciei ali! Fiquei só de cueca e tomei vários banhos. Que maravilha! Estava precisando! Por ali havia algumas pegadas de alguns animais selvagens que com certeza também adoravam aquele lugar paradisíaco. Almoçamos ali mesmo uma mistura de feijoada enlatada com leite em pó e farinha. Era todo o resto da comida que possuíamos. Continuamos depois satisfeitos e desta vez resolvemos atravessar a longa nascente do igarapé da Cruz bem mais na frente. Ao cruzarmos o igarapé da Cruz o encontramos mais largo e fundo e por sorte havia uma árvore tombada, porém, ainda viva sobre ele que nos serviu de pinguela. Voltamos para a nossa antiga trilha e fomos nos aproximando da mata onde deixamos a nossa voadeira. Comecei a ficar meio ansioso com receio da nossa voadeira não estar ali e depois fui olhando o tempo todo o GPS para ver a distância entre nós e ela. Faltava 1.000 m, 800 m, 500 m e comecei a contar os meus passos de ansiedade. Ao chegarmos ao ponto exato a nossa voadeira estava ali intocada. Graças a Deus! Agora as coisas iriam ficar bem mais fáceis e qualquer coisa poderíamos pescar algum peixe por ali. Graças a Deus não encontramos nenhuma cobra e nenhum animal selvagem mais agressivo. Além de que ninguém havia se machucado seriamente. Só os meus braços que estavam cheios de arranhões e com marcas de sangue, mas isso era o de menos. Chegamos ali às 15h30 e decidimos descer todo o igarapé SJB até a sua boca com o rio Cautário por uns 28 km. A descida foi bem mais rápida, pois já havíamos aberto o caminho na ida. Observei que o igarapé estava uns 50 cm mais baixo devido a parada das chuvas e algumas praias já estavam aparecendo. Fomos passando com tudo por entre os galhos e troncos que ainda teimavam em nos atrapalhar e ao chegarmos às corredeiras as mesmas estavam mais fortes desta vez. Na última delas ficamos presos numa pedra grande e por pouco não viramos a voadeira de lado, ou seja, perpendicular ao rio, o que a faria tombar. O novo piloteiro era muito bom no manche e conseguimos escapar. Achei engraçado o palavreado que eles usavam por ali, ou seja, “olha a gaia na gaia”, que significa: olha o galho na testa; “levanta o rabo”, que significa: levanta o motor de popa para não bater nas pedras; “empurro a vara”, que significa: empurrar uma vara que cortamos para sairmos das pedras das corredeiras. Chegamos à boca do igarapé SJB às 18h20 e os carregadores quiseram subir o rio Cautário por mais uns 12 km até a base da FUNAI, onde era mais perto e segundo eles a casa estava fechada, mas a varanda estava aberta e nos daria uma boa dormida. O novo piloteiro navegou tranquilo à noite, pois ele conhece bem o trajeto. Ao iluminarmos às margens com nossas lanternas vimos dezenas de jacarés-açus e vagalumes aos milhares pairavam sobre elas. Depois de uns 30 minutos chegamos à base da FUNAI. As luzes estavam acessas, significando que havia gente ali. Paramos, descemos da voadeira e fomos pedir autorização para dormirmos ali. O pessoal ficou meio desconfiado e os nossos carregadores não conheciam esta nova turma. Por fim, falaram pelo zap e chamaram um amigo meu, ex-chefe do PARNA Mapinguari que lembrou-se de mim e nos autorizou a dormirmos ali. Comemos um delicioso arroz com linguiça e frango, pois a fome era gigante e ainda conseguimos dormir nos quartos da casa em palafita. Maravilha! Hoje caminhamos cerca de 18,5 km na selva.

Logo de manhã no outro dia tomamos um ótimo café com o pessoal da FUNAI e depois nos autorizaram ir às corredeiras do Bom Destino logo ali perto subindo o rio Cautário. O dia estava bem azulado novamente. Nas corredeiras há uma ponte de pedra, a qual estava seca e deu para passar caminhando por debaixo dela. Tem muitas pedras por ali e o rio se divide em dois braços, sendo que no principal há uma forte corredeira. Foi por ali que segundo o meu amigo piloteiro um colono dali da região que matava índios estava fazendo a barba na beira do rio e de repente levou uma flechada na barriga. Na hora ele se jogou para dentro do rio e levou mais cinco flechadas nas pernas e nos braços. Ele viu que era um índio adolescente que lançava as flechas e foi nadando, conseguindo se livrar. Dizem que deve de ter sido vingança daquele indiozinho porque o tal colono havia matado os seus pais. Há muitas histórias de antigos exploradores e caçadores de índios ali naquela região. Numa outra história havia um explorador famoso e muito perverso que estava acostumado a dizimar os índios que encontrava em suas jornadas e numa delas depois de ter matado toda a tribo um companheiro dele viu uma criancinha sobrevivente chorando e perguntou se ele não queria levá-la consigo para criar, e o mesmo pegou o facão e a esgoelou dizendo que não queria saber de índio nenhum. São erros do passado que não podem mais serem repetidos. Voltamos descendo o rio Cautário e havia bicho para todos os lados. Tirei muitas fotos até que chegamos finalmente à base da RESEX do rio Cautário. Os vigias da base ficaram espantados com os meus braços arranhados e queimados do sol quente, pois esqueci de passar o protetor solar e não ligo muito para isto. Paguei os carregadores e depois fiquei ali descansando, pois estava exausto. Fiquei ainda por horas meio zonzo e com o balançar da voadeira na cabeça. Estava todo cheio de mordidas de carapanãs, carrapatos e até de algumas abelhas. Além disso, meus pés estavam super inchados de tantas torções da caminhada. Realmente eu precisava descansar. Pedi a proteção divina contra qualquer possível doença. Almoçamos um tucunaré cozido delicioso na casa de uma das irmãs do meu amigo piloteiro e depois voltamos para a base da RESEX. Coloquei as minhas roupas fedorentas e sujas no sol para secarem e mais tarde mandei lavá-las. Amanhã estarei voltando para Brasília-DF.

Logo cedo tomei um bom café e passei a manhã toda ali na base da RESEX descansando e conversando com os vigias sobre a expedição lá na Serra da Cutia. Depois fez um calorão de lascar e fui com o meu amigo piloteiro e seu filho tomar um banho numa praia dali do rio Cautário. Os vigias trouxeram uma galinha caipira e uns peixinhos para almoçarmos e tirei a barriga da miséria em relação ao que passamos na expedição da Serra da Cutia. Descansei mais um pouco depois do almoço e depois subi o drone e fotografei e filmei tudo ali por perto, inclusive a Serra da Cutia a uns 17 km de distância dali e os Peitos a uns 20 e poucos km dali também. Pena que não existe nenhum caminho dali da base da RESEX à Serra da Cutia e aos Peitos o que ajudarei bastante. Se bem que não estaríamos dentro do PARNA, mas sim na RESEX do rio Cautário, pois o PARNA inicia ou termina exatamente no pé das serras. Não sei porque não colocaram toda aquela área do igarapé SJB e parte do TI Uru Eu Wau Wau, onde há aquele morrinho “Verruga” dentro do PARNA. Creio que no primeiro caso deve de ser porque esta área ainda não foi indenizada para pertencer ao PARNA. Mais tarde arrumei tudo e partimos para a rodoviária da vila São Domingos-RO. Ao andarmos sobre aquela estradinha perigosa que separa a vila Laranjal-RO da BR-429 veio um carro em sentido contrário numa curva e quase bateu em nós. Sorte que o meu amigo piloteiro vinha devagar e abriu bem na curva. Chegamos à vila São Domingos-RO, despedi-me do meu amigo piloteiro e de seu cunhado e fiquei ali esperando o ônibus vir de Costa Marques-RO. Eu iria viajar a noite toda e chegar a Porto Velho-RO às 8h do outro dia. Uma coisa que esqueci de falar é que naquela região do rio Guaporé, principalmente de Costa Marques-RO está aparecendo muitos búfalos selvagens. Estima-se que já são por volta de 3.000 animais e os rebanhos costumam atravessar o rio Guaporé em manadas e já chegaram até a atacar alguns barcos e pessoas. O sobrinho do meu amigo piloteiro disse que uma vez viu alguns deles ali por perto da boca do rio Cautário e que até atacaram o trator que ele dirigia chifrando a sua lâmina. São animais de quase uma tonelada de peso e podem matar facilmente uma pessoa. Já pensaram em liberar a caça a esses animais, mas pode aparecer o problema de que certamente os caçadores matariam outros animais também. O certo seria um guia dos órgãos ambientais acompanhar os caçadores e doar a carne dos búfalos, que não são da fauna brasileira, aos mais carentes, pois a situação está ficando muito perigosa por aquelas bandas.

 

SUGESTÕES:

Deveria de ter uma acessibilidade melhor à área Norte do PARNA com a construção de uma base e também na área próxima dos Três Peitos com a Serra da Cutia. 

 

OBSERVAÇÃO:

As informações aqui contidas são meras experiências passadas por mim neste PARNA e em suas redondezas. Portanto, não me responsabilizo pelos riscos e problemas que possam acontecer e nem em garantir que tudo dará certo para propensos visitantes a este PARNA e as suas redondezas. Cabe a cada propenso visitante se responsabilizar pelas suas decisões e atitudes, procurando sempre um comportamento lícito e compatível com o local, com a fauna, com a flora e com as pessoas ali residentes e nativas. Além de que deverá seguir as regras do ICMBio, as regras de segurança e o uso adequado de seus equipamentos durante toda a visitação deste PARNA e de suas redondezas.