PARQUE NACIONAL SERRA DO PARDO

1ª PARTE

2ª PARTE

3ª PARTE

4ª PARTE

5ª PARTE

6ª PARTE

7ª PARTE

8ª PARTE

 

INFORMAÇÕES IMPORTANTES:

 

QUANDO IR:

Prefira ir quando as chuvas estiverem parando e os rios e igarapés começando a secar, pois desta forma ainda dará para navegar e ainda encontrará água para beber. Ou seja, entre junho e julho.

 

O QUE LEVAR:

Leve a autorização concedida pelo ICMBio e avise o chefe do PARNA pelo menos 15 dias antes de sua ida. Além disso, leve uma boa barraca, almofada ou colchonete inflável para dormir, cobertor fino (na Amazônia há a possibilidade de fazer noites frias), capa contra chuva, uma boa bota de cano longo (as de borracha espessa protegem tanto de picadas de cobras quanto de se molhar ao atravessar charcos e pântanos), meião ou meias especiais, esparadrapo e algodão, copo e talheres dobráveis, repelente, protetor solar, boné, óculos de sol, roupas de uso pessoal (prefira as de nylon ou de material leve), um bom GPS com as coordenadas já marcadas, power bank (carregador para aparelhos eletrônicos), lanterna de testa, aparelhos eletrônicos pessoais, barras de cereal, bananas desidratadas, uma ou outra bebida energética, hipoclorito de sódio para por na água de rios suspeitos, produtos de higiene pessoal, etc.

A água pode ser levada em garrafões de 20 litros no caso de ir de voadeira.

Leve um tênis daqueles a prova d’água para ficar na voadeira e ao descer nas ilhas de areia.

Leve um Específico Pessoa para amenizar eventuais picadas de animais peçonhentos para as primeiras horas.

 

COMO CHEGAR: 

Apesar de que Altamira-PA está mais distante do PARNA do que São Félix do Xingu-PA (SFX-PA), ainda assim possui uma melhor estrutura. Em ambas cidades pode-se chegar de avião comercial, de carro ou de ônibus.

Será preciso ir de voadeira (barco de alumínio rápido com motor de popa) por cerca de 370 km pelo rio Xingu de Altamira-PA até a sede do ICMBio no PARNA Serra do Pardo. Se for por SFX-PA precisará navegar por cerca de 150 km até a base do ICMBio.

Para a parte central é só entrar no igarapé Pontal e para a parte norte entra-se pelo rio Pardo. Pelo igarapé Garrancho chega-se próximo da possível cratera de meteorito no centro do PARNA.

Há estradas que ligam a TransIriri às corredeiras do rio Pardo e do igarapé Pontal, porém, as fazendas que ali estão dentro do PARNA ainda não foram indenizadas.

 

CIDADES DE APOIO:

As cidades de apoio para conhecer este PARNA são Altamira-PA e SFX-PA, onde se encontram toda a estrutura necessária como hotéis, bancos, hospitais, etc.

 

ATRAÇÕES: 

A sede do ICMBio é muito bonita e confortável caso consiga uma autorização para ficar lá. Há também um lindo mirante e uma pista de avião que costuma aparecer animais selvagens.

Existem praias no período do verão ou menos chuvoso, principalmente no rio Xingu.

Há também as corredeiras do igarapé Pontal e do rio Pardo no final do PARNA, navegando-se por eles. Ainda no final do igarapé Pontal, próximo às corredeiras há uma linda cachoeirinha com água limpa e cristalina.

Pelo igarapé Pontal, afluente do rio Pardo, é possível chegar bem perto da eventual cratera de meteorito que se localiza no centro do PARNA.

Há várias espécies de aves, jacarés e quelônios.

 

DICAS: 

Procure se relacionar bem com os capatazes e gerentes das fazendas ainda em processo de desapropriação, mantendo a humildade e a educação. Mesmo assim, não é garantia de se conseguir passagem para explorar a região.

Tenha autorização do ICMBio para entrar no PARNA.

Nunca ande sozinho na mata.

Próximo à boca do igarapé Pontal há uma biquinha/cachoeirinha muito linda que sai de um barranco e que possui água cristalina, a qual é boa de se beber, porém, todo cuidado é pouco, por isso utilize mesmo assim um hipoclorito de sódio para dissolver nesta água se for bebê-la.

Tome muito cuidado com os peixes chamados trairão, pois os mesmos são muito agressivos e costumam morder tudo que encontram pela frente, até mesmo as piranhas. Por isso, prefira tomar banho em alguma praia, remanso ou canal do rio Xingu por ter a água mais clara, onde se pode enxergar melhor o fundo do mesmo.

 

RISCOS:

Raios, ventanias, chuvas fortes, inundações, desmoronamentos, etc.

Animais peçonhentos, onças, arraias, jacarés-açus, entre outros animais selvagens.

Acidentes de forma geral, se perder, afogamentos, cortes, picadas, mordidas, insolações, desnutrições, estresses, insônias, intoxicações alimentares, adquirir vermes, doenças tropicais, eventuais ataques indígenas, assaltos, sequestros, etc.

Segundo o nosso piloteiro há risco de se encontrar com jagunços no final das corredeiras do igarapé Pontal e do rio Pardo.

 

DIÁRIOS:

Cheguei a São Félix do Xingu-PA (SFX-PA) e consegui um piloteiro com sua voadeira ali por perto para me levar até a boca do igarapé São Sebastião, passando pelo Porto Estrela e por um trecho de mais de 20 km pela área do rio Xingu que pertence ao PARNA Serra do Pardo. Era mesmo fascinante eu estar ali navegando em mais um rio amazônico com proporções grandiosas como o próprio rio Amazonas. Vi alguns aruanãs pescados pelos nativos dali da região e mais para frente vi alguns trinta-réis em algumas praias. Depois do Porto Estrela começaram a aparecer muitas praias e pedras e com isso, mais alguns animais, como biguatingas e jacaretingas. Ao pararmos numa dessas praias encontrei um caranguejo diferente com várias pintas em seu exoesqueleto. Mais para frente, avistamos uns pontinhos escuros numa linda praia e fomos lá ver. Caramba, que sensacional! Ainda tinham alguns filhotinhos de tartaruga-da-Amazônia saindo de seu ninho. Capturar aquele momento inesquecível foi muito gratificante. Seguimos em frente e paramos na casa de um ribeirinho que estava criando um filhote de tracajá. Tomara que ele não o coma depois. Chegamos à boca do igarapé São Sebastião e começamos a voltar para SFX-PA.

Já no outro dia, resolvi que queria percorrer pela parte terrestre até a Serra do Pardo, onde existem algumas corredeiras do igarapé Pontal, depois que ele se encontra com outro igarapé. Tirei as coordenadas do GPS e vi que havia estradinhas que iam até este destino. Atravessei o rio Xingu numa balsa no Porto Estrela e segui pela TransIriri. Depois de uns 50 km virei à direita rumo a algumas fazendas. Vi muito desmatamento por ali e com alguma pecuária. Passei por uma mata bem fechada e parei numa fazenda para pedir permissão para fotografar a serra e o gerente dali foi tão gente boa que resolveu ir comigo até no igarapé Pontal. Passamos por mais pecuária e vi alguns pássaros, como a polícia-inglesa-do-norte e araras-azuis-grandes. Um tuiuiú solitário me chamou a atenção. Depois chegamos numa área com muitas vitórias-régias pequenas e vi uma ave que nunca tinha visto ainda, ou seja, um frango-de-água-azul. Chegamos até onde o campo aberto pela pecuária acabava e estávamos a somente uns 6 km das corredeiras do igarapé Pontal. O gerente me mostrou uma trilha que ia até lá e fomos em frente. Putis, que sorte eu ter conseguido a companhia deste senhor para me ajudar, porque senão seria muito difícil chegar até ali. Atravessamos um outro igarapé por cima de alguns troncos caídos, chegamos ao igarapé Pontal com suas águas meio barrentas e vimos uma jacaretinga por ali. Andamos mais um pouco beirando a margem do igarapé Pontal e chegamos às corredeiras. A caminhada neste trecho foi bem difícil, mas deu tudo certo. Retornamos todo o caminho de volta, paguei uma comissão àquele gerente gente boa e o mesmo já me explicou tudo e me passou o contato de um amigo dele de outra fazenda que poderia me levar até as corredeiras do rio Pardo amanhã. Voltei para a TransIriri e dormi por ali mesmo numa pousadinha numa vila.

Acordei cedo novamente, tomei café e partir adiante pela TransIriri. Cheguei a um entroncamento, onde eu deveria virar à direita e peguei algumas poças d’água. A pecuária também estava forte por ali. As estradinhas começaram a ficar cada vez mais estreitas e às vezes apareciam trechos bem fechados na mata. Continuei a ver muito desmatamento por ali e ao passar por uma daquelas árvores secas vi uma cobra cipó deslizando sobre o seu tronco. Cheguei à fazenda que o gerente gente boa de ontem havia me falado e fui lá tentar conversar com o capataz. O cara ficou meio desconfiado no começo, mas depois que falei que só queria conhecer as corredeiras do rio Pardo e que o fulano gerente de ontem havia me dito para procurar ele dali, o clima ficou melhor. O capataz dali então foi comigo, mas disse que o dono daquelas terras não gostava de receber ninguém por ali. Comecei a avistar algumas serras e algumas aves, como o acauã e uma linda inhuma com seu penacho ímpar e suas patas grandes. Próximo de um desmatamento, entramos na mata para vermos o rio Pardo e encontramos um bando de bugios bem tranquilos. Fomos em mais alguns pontos dali do rio Pardo, onde havia algumas corredeiras e depois em uma outra área recém desmatada vi uma bonita lagoa. Entramos na mata novamente, onde o som das corredeiras estava mais forte. O capataz disse que ali sim que tinha as maiores corredeiras. Caminhamos um trecho de uns 150 m e vi várias corredeiras. Por ali havia alguns líquenes amarelos bem bonitos nas pedras. O capataz disse que aquela área ainda estava em processo de desapropriação pelo ICMBio e que era por isso que o dono daquelas terras não gostava muito de receber as pessoas. Tomara que termine tudo bem, pois aquela área por ali é muito bonita mesmo. Quase no final do dia a lua nasceu por entre aquelas bonitas serras. Ela estava quase cheia. Fiquei muito satisfeito por ter conseguido chegar até ali também e depois paguei uma boa diária para o capataz e agradeci muito a ele pela atenção e pela simpatia.

Em uma outra oportunidade, eu havia chegado à Altamira-PA para desta vez fazer todo o trecho fluvial por este PARNA. Acordei às 5 horas, o dia estava lindo, tomei café e fui ao ICMBio dali de Altamira-PA para acertar tudo. Comprei combustível e óleo, assim como compras de mercado e gelo para manter alguns alimentos. Saímos de Altamira-PA às 10 horas com o chefe daquele PARNA, piloteiro e mais dois ajudantes. Nossa voadeira tinha uns 13 m de comprimento e com um motor 115 hp Yamaha. Ela desenvolvia até uns 50 km/h. Ainda bem que a nossa voadeira tinha teto e cadeiras confortáveis, pois iríamos navegar o dia todo. Além disso, ela tinha até energia solar. Navegaríamos cerca de 350 km até a base do ICMBio em frente ao rio Xingu. Passamos por várias corredeiras e redemoinhos perigosos, mas o nosso piloteiro era bem experiente. Paramos em algumas casas de ribeirinhos em áreas ecológicas. Vi alguns tracajás, trinta-réis e outros pássaros. Percorremos só a metade do percurso hoje, pois saímos muito tarde de Altamira-PA. Fez um lindo ocaso de tardinha. Paramos na casa de um ribeirinho, tio de nosso piloteiro para dormirmos. À noite a lua estava muito bonita.

Já no outro dia, acordei às 2 horas da madruga e ouvi um Urutau ou Mãe da Lua cantando do outro lado da margem do rio Xingu. Quando fui gravá-lo o pessoal da rede ao lado da minha barraca começou a roncar e aí desisti. Logo depois apareceu um cara numa rabetinha, parou ali perto e levou os dois cachorros que estavam ali. Creio que os levou para caçar. Apareceu outra rabeta com vários pacus que foram pescados dentro da canoa. Depois amanheceu, tomamos café e seguimos adiante. Paramos na vila Gabiroto para o chefe do PARNA Serra do Pardo participar de uma reunião com os ribeirinhos e indígenas e continuamos rumo à base do PARNA. Paramos na casa de um ribeirinho que conhece bem o rio Pardo e já deixamos tudo combinado para na volta irmos também nesta outra área. Ele disse que nesta área do rio Pardo é cheio de onças e de porcões (queixadas) e que a gente costuma vê-los até cruzando o rio. Será? Disse também que por ali na margem do rio Xingu onde ele mora e outros ribeirinhos também havia uma onça que tinha devorado 17 cachorros e que tiveram que mata-la, mas mesmo assim outras haviam aparecido e que inclusive ontem à noite teve uma que ficou “urrando” por várias horas por ali. Será? Percebi que até agora não tínhamos visto nenhum animal selvagem grande, como jacarés-açus, peixes-bois, botos e etc. Dizem que é por causa da Grande Curva do Xingu lá perto da hidrelétrica de Belo Monte, pois por ali há centenas de corredeiras com muitas pedras o que dificultavam a passagem destes animais. E pensar que o plano inicial desta hidrelétrica era o transformar toda esta Grande Curva do Xingu num lago navegável e que com isso, a tornaria a maior hidrelétrica do mundo, superando em três vezes Itaipu. Coisas absurdas que acontecem num país que parece não ter soberania sobre o seu território! Chegamos à base do ICMBio às 13h30 e logo subimos um morrinho com uma parte com escadas que é bem puxado com cerca de uns 200 m de extensão, ainda mais carregando muita coisa. Enfim eu havia chegado à tão distante base do ICMBio do PARNA Serra do Pardo. Gostei muito da base, onde há um lindo mirante do rio Xingu, bons quartos e banheiros, um espaçoso gramado todo cercado e uma ampla cozinha, além do gerador. Vi um casal de lobinhos ali por perto e o legal também é que a boca ou foz do igarapé Pontal fica logo ali pertinho. Estávamos todos morrendo de fome e almoçamos uma comida gostosa ali mesmo feita pelos brigadistas. Logo depois continuamos subindo o rio Xingu até o Porto Estrela a mais de 50 km dali e onde há uma balsa que atravessa o rio Xingu e continua pela TransIriri. Passamos por lindas praias naquela área que já faz parte do PARNA Serra do Pardo no rio Xingu e vi uma grande árvore que formava um “L” em seu tronco. Às 17 horas chegamos ao Porto Estrela. O local estava cheio de gente e de carros. Todo mundo estava ali para tomar banho nas praias, assar carne, pescar e passar o fim de semana. A pesca estava liberada nesta época e só não pode pescar na piracema que vai de novembro a fevereiro. A TransIriri está quase emendando com a cidade de Novo Progresso-PA na BR Cuiabá-Santarém. Por enquanto o IBAMA e a FUNAI estão conseguindo evitar esta ligação por causa de uma pequena área indígena ali existente, mas creio que em breve isto será possível. Penso ser importante mesmo esta ligação ou união com o oeste, pois a Transamazônica e a passagem por São José do Xingu-MT ficam muito distantes uma da outra. Porém, deve-se haver fiscalização para não destruírem muito a floresta. Ficamos ali um tempo, o nosso piloteiro reviu uma amiga e voltamos. Vi bandos enormes de marrecas-caboclas e um lindo pôr-do-sol com uma nuvem que parecia o “cogumelo” de uma bomba atômica. Ao chegarmos à base do ICMBio encontramos o piloteiro que nos levará para conhecer esta área do igarapé Pontal amanhã e já deixei tudo combinado. Pedi para ele arrumar mais um ajudante, para pescar algum peixe por ali no rio Xingu para levarmos como garantia e para chegar cedo.

Às 6 horas eu já estava acordado e o plano era o de sair às 7 horas, porém, nosso piloteiro desta área se atrasou demais e só saímos às 8h30. Ele trouxe o seu filho como ajudante e acoplaram uma rabeta de 13 hp no casco da voadeira que utilizaríamos. Logo chegamos à boca do igarapé Pontal e na primeira corredeira, ou seja, na do Ceará, a uns 2 ou 3 km da boca, quando fomos passar por ela, o nosso piloteiro errou feio e por um triz não capotamos a voadeira ali. Ufa, foi por muito pouco! Ele bateu numas pedras à direita e a voadeira começou a ser empurrada de popa para a esquerda balançou bastante. O filho dele então saltou da voadeira e a segurou no meio do igarapé. Atrás de nós havia uma pedra que provocava uma enorme onda e se caíssemos ali seria um tombo na certa também. Acabou que aos poucos fomos conseguindo voltar a voadeira para a margem direita e paramos. Depois descemos o material mais importante, valioso e pesado da voadeira e o nosso piloteiro foi sozinho. Deu certo e depois recolocamos tudo de volta. Caramba, foi por pouco mesmo! Depois o piloteiro disse que havia se esquecido de desamarrar a corda que segurava a rabeta para ter mais deslocamento. Que vacilo! Continuamos em frente e não encontramos mais corredeiras por um bom tempo. Vi uma árvore interessante, a qual os seus frutos ou flores despencavam como se fossem bolas de uma árvore de Natal. Passamos por uma outra árvore que o seu tronco possuía um buraco enorme que o atravessava de um lado para o outro. Parecia uma boca grande bebendo a água do igarapé. Ali dava para ser uma toca perfeita para uma sucuri. Em alguns trechos o barranco na beira do igarapé estava quase todo coberto do húmus que vinha da floresta acima dele. Alguns galhos apareceram e os cortamos. Vi muitos bandos de marrecas-caboclas, alguns anus-pretos, biguás, biguatingas, Martins-pescadores e tracajás. Por ali também estava cheio de babaçus e de tucuns, que são palmeiras, sendo que esta última possui longos espinhos. De vez em quando apareciam as bananas-bravas. Mais para frente encontramos um outro tronco com um buraco grande. Paramos para almoçar e depois durante o percurso apareceram mais algumas galhadas e algumas jacaretingas. Numa galhada que paramos havia uma jararaca na água meio inerte e parecia que estava trocando a pele. Paramos na extinta fazenda Piranheira para procurarmos um trator V8 de esteira que havia sido engolido pela floresta. Caminhamos cerca de 1,5 m e nada. E olha que o nosso piloteiro disse que sabia onde ele estava. Vi alguns bugios por ali num momento que cheguei perto de umas árvores mais altas. Nos enchemos de carrapichos e só encontramos os restos de uma casa, duas caixas d’águas em bom estado, algumas ferramentas velhas e outros objetos. Falei para prestarmos atenção quando passamos ao lado dos restos da casa porque geralmente é nestes lugares que as onças gostam de ficar. Falando nelas, encontramos algumas pegadas das danadas por ali. Passando por outras galhadas fomos atacados por um monte de formigas venenosas chamadas de Cearinhas. Ao passarmos por debaixo de uma árvore caída vi um cogumelo dentro de um buraco em seu caule. Numa certa árvore havia vários ninhos de guaxos ou japiins. Vi algumas bromélias e comigo-ninguém-pode gigantes. De vez em quando aparecia alguma praia e aí eu olhava com bastante atenção para encontrar algum bicho. Geralmente encontrava algum jacaré pegando sol. De vez em quando também apareciam certos formigueiros bem no alto de algumas árvores que davam a impressão de ser um urso, mas o único urso da América do Sul, ou seja, o urso-de-óculos não existe por estas bandas. Um inseto esquisito pousou nos meus pés. Peguei-o, colocando-o sobre um graveto. Ele era uma mistura de grilo com barata d’água e com sei lá mais o que. De repente o motor da rabeta entortou e quando paramos para ver percebemos que o seu buraco de encaixe estava bem aberto. Putis, era só o que faltava este motor não servir mais ali naquele local! Já havíamos navegado uns 65 km e se voltássemos a remo demoraria uns dois ou três dias. Mais uma vez parece que o nosso piloteiro havia vacilado ao encaixar o motor pesado ali naquele suporte fraco. Depois de um certo trabalho conseguimos reajustá-lo pelos menos provisoriamente. O jeito agora era navegar com toda atenção sem forçar nas curvas fechadas do igarapé. Qualquer coisa também poderíamos furar uma das laterais da popa da voadeira e tentar adaptá-lo ali, mas tudo isto daria muito trabalho e prejuízo. Caramba, parece que este nosso piloteiro dali do igarapé Pontal era meio distraído mesmo! Para variar, o filho dele escorregou num certo momento ao cortar um galho e caiu no igarapé com a cara de susto. Sorte que ele foi esperto e virou o facão na hora para cair sobre ele ou para ele não cair sobre o facão. Montamos o acampamento ali na beira do igarapé. Vi algumas pegadas de anta, um sapo diferente, uma iguana e os mutuns ficaram cantando à noite toda. Sorte que não é um canto incômodo como o dos galos.

Acordei às 6 horas e o dia raiou às 6h30. Não vale à pena acordar muito cedo porque senão gasta-se as baterias e pilhas das lanternas na escuridão. Nos arrumamos, tomamos café e saímos às 7h30. Havia uma certa neblina que logo foi passando. Vimos vários pássaros naquele horário, como ciganas, jacus, socós-bois, socozinhos, garças-mouras, garças, bem-te-vis, ararinhas, andorinhas e as três espécies de araras, ou seja, a Canindé (amarela e azul), a vermelha (vermelha, azul e verde) e a azul, além daqueles outros pássaros já citados anteriormente. Encontramos muitas galhadas e outras jacaretingas. Uma lagartinha daquelas de andam diferente, formando um morrinho ao se locomover apareceu no meu colo. Era tanto inseto que caía dentro da voadeira por causa das galhadas que foi preciso ficar atento o tempo todo para não ser mordido por algum venenoso. Quando paramos para cortar uma outra árvore que bloqueava a passagem com a motosserra emprestada pelo ICMBio apareceu um formigueiro de lascar. Tínhamos que cortá-la rápido porque as formigas viriam em massa para cima da nossa voadeira. Ainda bem que deu tempo. Vi um bonito tucano amarelo, preto e vermelho com o bico preto. Algumas árvores de folhas claras se destacavam na paisagem, assim como algumas samaúmas bem na beira do igarapé. Uma coisa que achei estranha foi a quantidade de espuma branca que aparecia de vez em quando boiando pelo igarapé. Aquele tipo de mato ou capim seco que fica por cima de algumas árvores na beira dos rios amazônicos também estavam presente ali. Avistamos a Serra do Pardo na sua parte mais larga e às 13 horas chegamos às corredeiras, onde é praticamente o final deste PARNA pelo igarapé Pontal. Paramos na margem e almoçamos ali mesmo. O filho do piloteiro encontrou uma caixa de ferramentas que alguém havia perdido ali já fazia muito tempo. Encontramos também uma seringueira toda cheia de marcas de uma antiga extração de látex. Caminhamos pela margem do igarapé até as corredeiras e no caminho encontramos uma linda cachoeirinha com suas águas bem cristalinas, bem diferente do igarapé Pontal. Levantei o drone e filmei as corredeiras e a Serra do Pardo. O piloteiro disse que o drone parecia com um grande mangangá (espécie de besouro). As corredeiras não eram tão bravas quanto foi a do Ceará e vi pelo drone que logo depois delas o igarapé se acalmava novamente. Penso que se estivéssemos mais preparados, como com mais hélices de reserva, com mais gente para puxar a voadeira e sem o receio enorme que nos perseguia de quebrar de vez o suporte da rabeta poderíamos atravessar aquelas corredeiras. Se bem que já estava bom demais, ou seja, já havíamos chegado ao final ou próximo do final do PARNA por aquele igarapé. Creio que chegamos até onde eu tinha vindo pela parte terrestre há alguns anos atrás. O nosso piloteiro andava com cuidado e meio assustado porque no passado o seu pai foi devorado por uma onça ali mesmo naquele local. Mas também o coitado andava sozinho. Começamos a voltar e passamos um pouco mais rápido nas galhadas porque o caminho já havia sido aberto na ida. O filho do piloteiro escorregou novamente e quebrou a tampa do nosso isopor. Achei as aves muito assustadas por ali, talvez fosse porque associavam a voadeira com tiros e barulhos que devem ter acontecido no passado quando ali não era um PARNA. Pegamos algumas frutas que estavam ali em uma das margens e o seu sabor era parecido com jambo. Vi vários tipos de flores e cada uma com fragrâncias deliciosas. Vi também uma árvore que me lembrou a barriguda por causa dos seus espinhos afiados. Chegamos ao mesmo acampamento de ontem às 17h30 e ali ficamos novamente. Levamos algumas mordidas de certo tipo de carapanã chamado suvela, a qual tem um ferrão maior do que o seu corpo e chega a atravessar a rede e a calças jeans. Ainda bem que eu fui para a barraca depois. Mais tarde ouvimos um barulho estranho parecendo com uma tremedeira forte e o filho do piloteiro disse que era uma sucuri. Depois ele nem conseguiu dormir mais direito.

Saímos no mesmo horário de sempre e ao chegarmos ao ponto que fica no rumo do que seria uma possível cratera de meteorito no meio do PARNA levantei o drone mais uma vez para ver melhor. Estávamos a cerca de 16 km em linha reta de sua eventual borda frontal. Ali por perto há uma serrinha chamada de Bananal que, segundo os nativos, aparecem luzes nas noites de lua clara em seu cume que ninguém sabe explicar e que nunca teve nenhum estudo sobre isto. Passamos novamente na extinta fazenda Piranheiras e caminhamos novamente para encontrar o trator sumido, mas nada de encontra-lo de novo. Engraçado foi o filho do piloteiro que disse que iria ficar nos esperando ali na voadeira, mas depois ficou com medo de encontrar alguma onça e foi a procura de nós três. Continuamos e chegamos à corredeira do Ceará. Desci ali, retirei as coisas de mais valor e filmei a voadeira passando por ela. O piloteiro resolveu ir pelo outro lado que me pareceu ser até mais perigoso. Chegamos à boca do igarapé Pontal e logo depois à base do ICMBio, onde dormiríamos ali novamente. O calor estava fortíssimo e resolvemos ir ali numa ilha/praia a cerca de 1,5 km da base. No caminho havia vários ipês amarelos que por sinal continuavam a aparecer por todas as partes daquela região. Quase no meio da ilha/praia havia um canal e tomamos um excelente banho ali cercados de água limpa e cristalina. Fiquei admirado com tantas pegadas diferentes de pássaros e de outros animais por ali. Havia também conchinhas brancas sobre a areia. Numa certa área havia vários bacurais-brancos com pintas. Vimos muitos trinta-réis, outro bando de marrecas-caboclas que deram um “show” de voo e voltaram para o mesmo lugar, muitos rastros de jacarés e de iguanas e muitos ninhos de arraias. O bom que ali não havia aquele peixe perigoso lá do igarapé Pontal chamado de Trairão, o qual tem uma boca grande com muitos dentes e que ataca tudo que se locomove, até as piranhas e pequenos jacarés. Disseram que uma mulher estava pescando certa vez e um deles saltou nos joelhos dela e arrancou um pedaço. Depois voltamos e fotografei um lindo pôr-do-sol entre dois morros. Ainda deu tempo de irmos ali à pista do pequeno aeroporto da base porque um dos brigadistas nos disse que já haviam visto vários animais selvagens por ali, como onças, queixadas, lobinhos, pacas e cobras. Mais uma vez não tive a sorte de encontrar nenhum desses bichos.

Acordei às 5 horas, tirei algumas fotos por ali na base do ICMBio, tomamos café e partimos do portozinho da base. Estava um nevoeiro tremendo que não dava para ver quase nada, mas depois de 1 hora de navegação o tempo limpou. Fomos rumo à casa do outro piloteiro que nos guiaria no rio Pardo. O outro piloteiro do igarapé Pontal que estava nos levando naquele momento não conhecia este trecho de descida do rio Xingu e eu o ia guiando pelo trajeto do GPS em alguns momentos oriundo da vinda com a voadeira grande de Altamira-PA. Apesar desta ajuda ele ainda bateu numa pedra que estava bem escondida e por sorte não rompeu a hélice. Desta vez estávamos utilizando um motor de popa de 15 hp, o qual é muito mais silencioso e forte. Vi um bonito jacaré sobre as pedras que ao aproximarmos entrou no rio. Paramos na última vendinha que há por ali e comprei mais mantimentos para esta outra etapa da expedição. Eu queria pagar com gasolina, mas a dona da vendinha queria um valor muito baixo e paguei então no dinheiro mesmo. Chegamos à casa do outro piloteiro ao meio dia. Almoçamos ali mesmo uma tartaruga-da-Amazônia que ele havia pêgo para sua família. A carne é muito parecida com a de frango e eles a assam no próprio casco. Este tipo de caça é permitido para os ribeirinhos desde que não façam comércio. Tomei um banho ali no maravilhoso rio Xingu novamente, pois o calor estava de lascar desde que havia começado o verão por ali. Arrumamos tudo, levamos uma penca enorme de banana maçã, outra de um tipo que faz frita, uma rabetinha de 7 hp de reserva e de garantia e todos os mantimentos e ferramentas necessárias. Saímos dali às 14 horas com pessoas, ou seja, eu, o amigo de Altamira-PA, o piloteiro do igarapé Pontal que resolveu ir para conhecer o rio Pardo, o filho dele e o piloteiro do rio Pardo. Logo chegamos à boca do rio Pardo e depois de uns 3 km apareceu a primeira corredeira, ou seja, a das Panelas. Depois vieram a da Pirarara e a do Castanhal. Elas estavam “fracas”, pois o rio ainda estava com um bom volume d’ água. O rio alargou e ficou bom de navegar. Depois que passamos a corredeira Carreira Comprida chegamos ao PARNA Serra do Pardo novamente e após uns 25 km da boca do rio Pardo. Antes havíamos cruzado com duas rabetas que vinham em sentido contrário. O nosso piloteiro disse que eram ribeirinhos. Encontrei os mesmos animais lá do igarapé Pontal e mais algumas garças brancas grandes e um pavãozinho-do-Pará. Paramos depois numa linda praia com muitas árvores na margem direita de quem está subindo o rio Pardo.

À noite fez muito frio e acordei meio cansado. Talvez pelo fato de já estar a dias pegando muito sol porque a nossa voadeira não tem teto e por beber pouca água. Levantei o drone e vi a possível cratera de meteorito a uns 25 km dali e bem atrás dela. Caramba, estou cada vez mais certo e convencido de que realmente estas montanhas que formam um “U” são mesmo as laterais e a frente de uma cratera de meteorito! A Serra do Pardo seria uma de suas ondas. Antes de montar esta expedição eu já vinha observando no Google Maps estas formações e as achei muito estranhas. Depois do café e de arrumarmos tudo saímos do acampamento às 8 horas. Encontramos as corredeiras da Trincheira e do Bambu. Nesta última havia um lindo casal de pavãozinhos-do-Pará. Pena que assim como as outras aves por ali, eles são muito ariscos e desconfiados não dando nem tempo de fotografá-los. Vi uma grande castanheira na beira do rio que estava com alguns “ouriços” (espécie de cabaça onde ficam as castanhas por dentro). Se um desses ouriços chega a cair na cabeça de alguém, já era. Uma iguana nos olhava de cima de alguns galhos. Algumas serrapilheiras (acúmulo de matéria orgânica com areia) apareciam de vez em quando. Às 14h30 paramos para almoçar. Nosso piloteiro disse que antes desta região ser um PARNA ele tinha extraído muita madeira dali. A mais abundante era o mogno que chegava a valer R$ 1.200,00 o metro. Eles cortavam várias toras de uns 5 metros de comprimento e as jogavam no rio Pardo. Elas boiavam, eles as amarravam entre si e depois as puxavam de barco rio abaixo. Ele disse que já chegou a puxar um grupo de 800 toras juntas amarradas no formato de uma voadeira para melhor cortar a água. Continuei vendo aqueles mesmos animais que vi no igarapé Pontal, sendo que por aqui encontrei mais pavãozinhos-do-Pará e vi a mais garças-reais, gavião-de-anta e urubu-rei. Passamos pela corredeira da Laranja e às 15 horas chegamos à fazenda Madressil, onde mora um senhor que vive ali sozinho há mais de 5 anos. Ele nos viu e estava armado. Sorte que o nosso piloteiro o conhecia já há algum tempo e ele nos perguntou se iríamos dormir ali. Gritei que talvez, mas que com certeza na volta pararíamos ali para conhece-lo. O coitado deve ficar até feliz quando vê alguém. Continuamos e vimos algumas capivaras e jacaretingas. Apareceu um grande trecho com muita galhada e árvores caídas. Deu uma trabalheira danada para cortar no facão e na motosserra todos aqueles obstáculos. Alguns passávamos por baixo quando dava e outros por cima, onde era preciso pegar um bom embalo na voadeira. Porém, tudo tem um limite e não podíamos abusar porque senão poderíamos estragar a voadeira ou o motor de popa. Ainda bem que o nosso piloteiro e todos nós somos cuidadosos quanto a isto. A tarde começou a passar rápida por causa do tempo perdido com aqueles obstáculos e então às 18 horas paramos para montar o segundo acampamento ali no rio Pardo e desta vez tivemos que subir por um barranco incômodo e bem alto. Deu tempo de armar a minha barraca ainda com um pouco de luz natural e o pessoal numa rapidez começou a preparar o jantar. Creio que estamos a um pouco mais de 3 km de distância do final da Serra do Pardo em linha reta e talvez a uns 5 km de navegação mesmo. Este final da serra possui uma ponta bem visível no Google Maps. Penso que ali seja a mesma corredeirona do rio Pardo, onde estive há alguns anos atrás, pois pouquíssimas pessoas já chegaram até ela vindas pela boca deste rio. Já a estou chamando de corredeira Distante. Ontem percorremos 55 km e hoje 77 km num total de 132 km. Disseram que havia muitas onças naquela região, mas até agora não tínhamos visto nenhuma. Uma coisa que era frequente de ser vista foram as diversas casas de marimbondos de diversas formas.

Acordei cedo como de sempre, nos arrumamos e partimos dali com a meta de chegarmos o mais rápido possível à corredeira Distante do rio Pardo no final da serra de mesmo nome. O rio abriu e ficou sem galhadas e aos poucos a serra do Pardo foi aparecendo. O piloteiro disse que por ali havia alguns jagunços ou pistoleiros que não gostavam que ninguém aparecesse naquela área, pois eles consideravam que suas terras não pertenciam ainda ao PARNA Serra do Pardo e nem queriam saber de indenizações. Com isso, prosseguimos com todo cuidado. Lembrei-me daquela outra vez que estive por ali vindo pela parte terrestre e graças a Deus havia dado tudo certo. Logo chegamos a tão demorada corredeira Distante. Vimos recentes pegadas de onça por ali e num certo trecho foi possível identificar que ela escorregou em cima de uma pedra grande. Paramos a nossa voadeira ali e levantei o drone. Do meu lado direito estava bem visível uma estrada, uma lagoa e a ponta das serra do Pardo. Logo na frente uma grande corredeira de uns 170 m de comprimento. Caramba, que legal! Eu havia conseguido chegar ao mesmo local que tinha vindo há tempos atrás! Em alguns trechos a corredeira se transformava em cachoeiras pequenas e lembrei-me de tudo. Havia ipês com suas flores amarelas por todos os lados também. Caminhamos por ali e vi novamente aqueles líquenes amarelos perfeitos e muito cativantes. Havia também vários tipos e formas de cogumelos. O lugar ali é bem bonito mesmo e tem tudo para se tornar uma importante atração turística do PARNA. O pessoal começou a ficar preocupado de estarmos ali e me pediram para irmos logo embora. Tirei várias fotos e fiz várias filmagens com o drone e com o celular e retornamos para a voadeira. Encontramos uma cerca e algumas estacas por ali. A serra foi se despedindo do meu olhar e fiquei satisfeito por ter chegado até ali e por ter “emendado” todo aquele percurso. Na volta vi um lindo gavião-pescador, ciganas, garças, muitas borboletas e etc. Paramos na casa do senhor aquele que mora sozinho há muitos anos. O coitado queria que almoçássemos ali, mas eu disse para ele que estávamos com pressa, pois o cronograma já estava muito comprometido. Mesmo assim, ainda ficamos um tempo ali com ele conversando e ele nos contou sobre as diversas onças que ele já havia matado por ali que vinham atacar a sua criação de porcos. Ele estava sem quase nenhuma comida e sem nada de café, pois a sua feira mensal ainda não havia chegado e estava atrasada. Fiquei com pena dele e lhe arrumei um pacote de café e alguns pacotes de comida. Ele ficou tão contente que quase chorou, principalmente pelo café. O nosso piloteiro trouxe várias sementes para ele, como de melancia, abóbora e etc. Sua conversa era bem interessante e percebi que, apesar dele estar ali isolado e sozinho, ele era um cara bem informado. Sabia até sobre a construção de Brasília-DF. Ele nos deu algumas pimentas plantadas por ele mesmo, além de dois leitõeszinhos para o nosso piloteiro. Nos despedimos dele e seguimos em frente. Vi uma árvore com lindas folhas marrons e um tipo de comigo-ninguém-pode enorme agarrada numa árvore. Mais para frente vi aqueles morceguinhos que ficam camuflados por mimetismo nos troncos e árvores que ficam na beira do rio. Eles são difíceis de se fotografar, mas desta vez consegui. Havia uma árvore retorcida no seu tronco e ao aplicar um “zoom” na máquina fotográfica percebi que era um ninho de araras. Vi um socó-boi e uma outra árvore com floração bonita na cor branca e com uma gostosa fragrância. Aliás, na Amazônia sempre aparece um cheiro bom de novos perfumes silvestres. Quando foi se aproximando das 18 horas falei para o nosso piloteiro parar e encontramos um lugar para lá de perfeito. Mais bacana ainda de se acampar do que o primeiro acampamento ali no rio Pardo. Os nativos pegaram alguns coquinhos e ao quebra-los tinha uma larva branca bem gordinha que é uma delícia frita. À noite apareceu um jacaré que ficou ali por perto de nós. Uma piranha ao se aproximar por causa das luzes de nossas lanternas foi pêga por aquele jacaré e logo depois daquele agito todo um trairão que tentou pegar um pedaço da piranha também foi atacado pelo jacaré. Caramba, o jacaré se deu bem! E pensar que o trairão possui os dentes e apetite mais potentes do que as piranhas. E olha que antes havíamos tomado um bom banho ali na margem, onde estes bichos apareceram. 

Ontem à noite fez muito frio novamente e dormi dentro do saco de dormir. Todo mundo estava bastante cansado e fomos nos levantando lentamente de suas redes e barracas. Estava tudo nublado. Saímos dali às 7h30 e aos pouco o sol foi se firmando. Depois de um tempo de navegação chegamos às 11h30 à boca do igarapé Garrancho, onde adentramos. Percorremos cerca de 1 a 2 km com muita galhada ou garranchos. O nome faz jus ao rio mesmo. Aí depois o igarapé abriu, mas o nosso motor começou a falhar. Com isso, perdemos mais tempo ainda, pois descobrimos que o tanque estava com muito resíduo no seu fundo. Aproveitei para fotografar e filmar um monte carapanãs que “andavam” sobre a água. Eu já tinha visto aranhas que fazem isto, mas carapanãs ainda não. Após a limpeza prosseguimos e encontramos uma linda cascatinha ou bica com água cristalina num barranco que realmente era fantástica. Mais para frente encontramos uma árvore com dois troncos grossos que bloqueavam todo o igarapé e dariam uma trabalheira danada para passarmos. Pelo fato de que já estava ficando tarde e que ainda queríamos chegar hoje à casa do nosso piloteiro, pois amanhã iríamos sem falta voltar para Altamira-PA com a nossa carona do ICMBio decide então voltarmos dali. Mesmo assim ainda deu para percorrer uns 18 km neste igarapé. Levantei o drone uns 200 m de altura e deu para ver melhor a possível cratera do meteorito a uns 14 km de distância em linha reta de seu centro. Descemos o igarapé Garrancho e retornamos ao rio Pardo. Vi uma jacaretinga com dois tracajás e seus filhotes. Mais para frente vi algumas ariranhas. Percebi que quase tudo que encontramos lá no igarapé Pontal também tínhamos visto aqui no rio Pardo também. Entramos no rio Xingu e fomos para a casa do nosso piloteiro na margem deste rio. Tomei um bom banho, acertei o pagamento de tudo, onde paguei até com a gasolina que sobrou e depois descansei. A nossa voadeira estava toda cheia de restos de galhos, folhas, insetos e etc, mas o pessoal deu uma boa limpeza depois. Amanhã o piloteiro do ICMBio passará às 8 horas para nos buscar e seguirmos para Altamira-PA. Será que chegaremos lá no mesmo dia mesmo? Achei os ribeirinhos por ali todos simpáticos e hospitaleiros e gostam de oferecer para a gente o melhor que possuem. Isto é o que mais me fascina neste povão do interior de nosso país e eu procuro retribuir também no que posso ajudando. Apesar de muitos não terem educação no sentido de cultura, por outro lado são educados no sentido da gentileza. Lógico que nem todo mundo é legal, mas a experiência vai nos ensinando a selecionar.

Ontem à noite a esposa do piloteiro dali nos disse que enquanto estávamos navegando lá pelas bandas do rio Pardo ela ouviu as onças “urrarem” por duas noites por ali. Pena que nesta noite não ouvi nada. Acordei às 3h30 da madrugada com “insônia na Amazônia”. Fui urinar e me assustei ao ver uma pedra que parecia com uma onça deitada me espiando. A lua estava brilhando sobre as águas do rio Xingu. Um verdadeiro espetáculo! Voltei para a barraca e dormi até umas 6h30. O túmulo de um dos parentes deles ali perto de mim não me incomodou em nada, mas uns dois do nosso grupo ficaram meio com medo. Quando fui desmontar a barraca fiquei assustado com um monte de formigas que haviam se instalado debaixo do meu casaco sobre o teto da barraca. Acontece que os insetos sempre procuram as roupas suadas e quentes. Bati nas paredes da barraca por diversas vezes e tive que muda-la de lugar por três vezes porque as formigas caíam no chão e queriam me atacar. Caramba, ainda bem que elas não conseguiram atravessar a tela da barraca para dentro. Deixei um monte de remédios para o pessoal, os quais levo sempre de reserva para qualquer emergência e o pessoal gostou muito. Tudo por ali é meio difícil para este povo. O piloteiro do ICMBio chegou e nos despedimos ali do pessoal com muita emoção. Quem sabe um dia eu retorne ali! Seguimos rumo à Altamira-PA e tornei a ficar impressionado como o rio Xingu é imenso e com vários canais. Nem parece que é um afluente do rio Amazonas por causa da sua dimensão. Outra coisa que me deixou pasmo foi a experiência e a loucura do nosso piloteiro. Ele passava correndo naquelas corredeiras cheias de pedras para todos os lados e em alta velocidade sem tocar em nenhuma. A voadeira chegou a alcançar quase 60 km/h desta vez. Se a gente chegasse a tocar em alguma daquelas pedras seria um tombo ou capotamento na certa. Além das pedras, por ali há redemoinhos enormes também e as fotos e as filmagens não revelam com precisão o que realmente a gente está vendo ali na hora. Felizmente nada de mal aconteceu e este foi o meu recorde percorrido num mesmo dia de voadeira, ou seja, 310 km. Chegamos à Altamira-PA às 16h30 e depois demoramos quase 1 hora retirando todo o material de dentro da nossa voadeira. Liguei a Dani e ela pegou de primeira.

 

SUGESTÕES:

Deveria se construir uma base na área Oeste do PARNA para uma melhor fiscalização e acessibilidade terrestre.

 

OBSERVAÇÃO:

As informações aqui contidas são meras experiências passadas por mim neste PARNA e em suas redondezas. Portanto, não me responsabilizo pelos riscos e problemas que possam acontecer e nem em garantir que tudo dará certo para propensos visitantes a este PARNA e as suas redondezas. Cabe a cada propenso visitante se responsabilizar pelas suas decisões e atitudes, procurando sempre um comportamento lícito e compatível com o local, com a fauna, com a flora e com as pessoas ali residentes e nativas. Além de que deverá seguir as regras do ICMBio, as regras de segurança e o uso adequado de seus equipamentos durante toda a visitação deste PARNA e de suas redondezas.